Revista Giz

02 Fev 2017 - Abr 2017

#2 | Nenhuma Nudez Será Castigada

Terra estrangeira parte 1: Seleção de escritórios gringos que fazem bonito em solo nacional

Pranchetas internacionais dão check-in por aqui em projetos que, ainda que eventualmente controversos, preenchem a paisagem com impacto. GIZ destaca alguns dos trabalhos assinados por profissionais que mapearam o Brasil em seus croquis

Os quiproquós do ano que passou levaram diversas vezes o Brasil aos noticiários internacionais. Além dos escândalos que culminaram na dança das cadeiras e num esboço de (re)estruturação política, o País acolheu mega (e controversos) eventos esportivos. Tanto a Copa do Mundo quanto as Olimpíadas e as Paralimpíadas acabaram reorganizando a urbanização e a distribuição populacional das cidades-sede. Em decorrência dessas competições, gerou-se uma enorme demanda de infra, muitas delas com a participação de escritórios estrangeiros, como a Arena Amazônia, em Manaus, feita pelo alemão gmp architekten, que também prestou consultoria para a reforma do Mané Garrincha, em Brasília.

giz-2-orb-et-urbe-1Não raro, grandes ou pequenas empresas procuram profissionais de diferentes nacionalidades para se afunilar cada vez mais em nichos e desbravar novas parcelas do mercado com mais propriedade. Arquitetos estrangeiros tendem a respeitar nossa tradição arquitetônica (boa parte se diz influenciada por ela, inclusive) e sabem que as parcerias com escritórios brasileiros não servem como base para “tropicalizações”, mas sim como colaborações efetivas – e eficazes. Muito antes dos extreme makeovers para inglês ver, estrangeiros já buscavam o Brasil para se instalar. Foi o caso do estadunidense Perkins + Will, que em 2012 uniu forças com o Rocco Vidal + Arquitetos para estabelecer seu escritório em São Paulo, e do francês Carbondale, do americano Eric Carlson, por aqui desde 2011, em parceria com a sócia Juliana Cintra do Prado. Rebobinando ainda mais a fita, em 1975, época da ditadura militar no Uruguai (e aqui também), Héctor Vigliecca se mudou para cá. Com o escritório Vigliecca & Associados, fundado em 1996, foi responsável pela elaboração da Arena do Futuro e do Centro de Hóquei, obras olímpicas no Rio de Janeiro.

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O designer e fotógrafo Felipe Morozini

 

É notável a assinatura de arquitetos de fora em grandes obras públicas, como é o caso do Museu do Amanhã, criação do espanhol Santiago Calatrava que brilhou durante a Olimpíada no Rio. O designer e fotógrafo Felipe Morozini relaciona o grande interesse de estrangeiros em obras faraônicas com a exposição trazida por elas. “Está na história da arquitetura de autoria”, teoriza. “Sempre houve uma relação íntima entre governo e arquitetos. Uma obra pública pode te deixar conhecido e trazer muito sucesso para sua carreira”.

Há também um fetiche histórico e abrangente relativo ao que vem de fora. Seja na literatura, na cultura, ou na criação de protótipos de cidades e de construções históricas, o Brasil viveu por muito tempo (e ainda vive…) seguindo modelos de outros países, e esse também é um dos aspectos que faz os estrangeiros atuarem por aqui

Além da vitrine, existe também a malfadada crise econômica. Quando a recessão deflagrada nos Estados Unidos em 2008 atingiu a Europa, os projetos no continente esfriaram. Enquanto isso, o Brasil vivia um “dinamismo econômico”, nas palavras de Valdeci Ribeiro, da consultoria Ceplan. “Foi a conjugação de um momento de crise na Europa versus um mercado brasileiro em dinamismo”, explica. “E tem a questão de sermos um País continental, com uma demanda reprimida muito grande. Qualquer investimento traz um impacto enorme.” Há também um fetiche histórico e abrangente relativo ao que vem de fora. Seja na literatura, na cultura, ou na criação de protótipos de cidades e de construções históricas, o Brasil viveu por muito tempo (e ainda vive…) seguindo modelos de outros países, e esse também é um dos aspectos que faz os estrangeiros atuarem por aqui.

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Retrato do arquiteto Oscar Niemeyer durante a construção de Brasília

“Mas considero como ponto principal o fato de o mundo estar cada vez mais globalizado, o que permite essa integração e incentiva a troca de trabalhos entre profissionais de diferentes nações”, considera o professor Guilherme Wisnik, do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAU-USP). “Tanto é que, assim como temos projetos arquitetônicos de estrangeiros por aqui, também podemos encontrar obras de brasileiros no mundo afora; ocorrem esses intercâmbios dos dois lados”, relativiza o docente. No exterior, claro que o legendário Oscar  (1907-2012) deixou sua marca: projetou sedes para as Nações Unidas, em Nova York, o Partido Comunista Francês, em Paris, além da Universidade de Constantine, na Argélia e do Centro Cultural Principado de Astúrias, na Espanha. Não pode ser ignorado, no entanto, que a oscilação mercantil também desfavorece o cenário brasileiro, do qual a arquitetura não fica de fora. “Há anos não temos um projeto muito significativo na arquitetura nacional”, considera Wisnik. Para ele, o mais recente a ser mencionado é a Praça das Artes, da Brasil Arquitetura e de Marcos Cartum, que revitaliza o centro de São Paulo (com previsão de término para o final de 2017).

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O projeto Japan house será inaugurado em maio de 2017 assinado por Kengo Kuma e colaboração de FGMF, em São Paulo

Apesar de reconhecer certa resistência diante da atuação de estrangeiros, o professor da FAU considera positiva a vinda desses profissionais. Para ele, cada projeto é um caso. “Enquanto podemos tirar ideias muito boas e novas referências de obras como as que envolvem o Museu da Imagem e do Som e a Cidade das Artes, no Rio de Janeiro (projeto de Christian de Portzamparc), e a Japan House (de Kengo Kuma, entrevistado por André Rodrigues, nesta edição), em São Paulo, temos amostras de trabalhos que não exploram muito bem o espaço e são exemplos de expressionismo”, diz, para o que exemplifica com o supracitado Museu do Amanhã, de Calatrava. Ainda segundo Wisnik, o MIS cria uma nova fachada no alinhamento em que se insere e o projeto do espanhol, “mesmo não sabendo aproveitar bem o espaço”, cria um marco na paisagem até então vazia. Ele acredita ainda que a Cidade da Música, hoje conhecida como Cidade das Artes, seja um projeto muito bem acertado, “porque opta por arquitetura de grande escala e se afirma em um lugar que não é lugar”.

 

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