O direito de viver em uma cidade coletiva: Haddad faz balanço sobre Plano Diretor de São Paulo

“Precisamos romper o paradigma de pós-guerra do direito individual de deslocamento, e ir ao encontro do direito de vivermos uma cidade coletiva”, disse o atual prefeito da cidade

  • 23 novembro 2016
giz-urbanismo-haddad-na-fau-ciclovia-paulista

As ciclofaixas foram uma das iniciativas do prefeito Fernando Haddad

Nos últimos dias 21 e 22, a FAU-USP recebeu o evento “Economia e Cidade — Habitação e Desenvolvimento Urbano”. Organizado pela Arq.Futuro em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo (SMDU) e a ONU Habitat, as palestras contaram com nomes nacionais e internacionais e se focaram em alternativas humanizadas para a questão de moradia nos grandes centros urbanos.

Durante a apresentação do evento, o professor Angelo Bucci sublinhou a importância da união do pensamento produzido em uma universidade pública com o governo municipal, ressaltando a escolha do arquiteto e acadêmico Fernando de Mello Franco, também presente na ocasião, para liderar a SMDU.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, foi o convidado especial para falar à plateia na abertura do evento. Ele fez um balanço sobre o Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo, aprovado em 2014 e uma das marcas de sua gestão — o qual, inclusive, foi elogiado por Rogier van den Berg, representante da ONU Habitat presente no evento, e foi reconhecido pela mesma Organização como um “exemplo de boa prática para o planejamento urbano inclusivo”.

giz-urbanismo-haddad-na-fau-ceagesp-mlp

O plano da prefeitura é transferir o Ceagesp para Perus, na Zona Norte de São Paulo

“Tenho certeza que nós demos um novo rumo para a cidade até pelo menos 2030 ao aprovar o Plano atual”, afirmou o prefeito. Ele começou a sua fala destacando a premissa de seu governo de que toda mudança fosse precedida por um debate público, colocado à disposição dos cidadãos com a antecedência devida para que os assuntos pudessem ser propriamente discutidos antes de qualquer tomada de decisão. “É sempre bom lembrar que é possível estabelecer com todos os interlocutores um diálogo republicano e transparente sobre os rumos da cidade”, ressaltou. “Saliento isso porque nem sempre foi assim em São Paulo. Espero que a prática se perpetue na cidade, para que possamos avançar. Ainda há coisas a serem discutidas”.

“Precisamos romper o paradigma de pós-guerra do direito individual de deslocamento, e ir ao encontro do direito de vivermos uma cidade coletiva”

Ele abordou a questão da especulação imobiliária e a diferenciou do estímulo à construção civil por meio de um desenvolvimento urbano equilibrado: “Nós precisamos subordinar a produção ao planejamento mais geral da cidade para não produzir as externalidades negativas da especulação. Um exemplo claro é o do Itaim Bibi: não havia transporte coletivo de massa e se formaram espigões enormes. Travou o bairro”, relembrou, explanando que casos como esse impõe ao município um gasto de investimento que teria sido evitado com um planejamento cuidadoso. “Isso também vale para a habitação. Nós descuidamos da população mais pobre, deixamos que ela se situasse cada vez mais longe do centro econômico. Se tivesse havido um adensamento inteligente, para que a pessoa pudesse morar mais perto do seu emprego ou vice e versa, não precisaríamos de tanto investimento em transporte coletivo”.

“Quando insisto que o Ceagesp precisa se mudar para a área do rodoanel”, disse Haddad, se referindo à polêmica decisão de mudar o entrepostos para a área de Perus, na Zona Norte, “não é para deixar a Vila Leopoldina mais bonita, é para tirar quinze mil caminhões por dia de uma área que não comporta [este volume], levar empregos para Perus e corrigir desequilíbrios. Nós estamos abrindo um novo vetor de desenvolvimento para a cidade, que mostra que as margens do Rio Tietê vão poder ser renovadas de forma planejada pela lei do Arco Tietê, que passa pela Câmara em dezembro”.

giz-urbanismo-haddad-na-fau-edificio-la-vue-salvador_ladeira-da-barra_divulgacao-brasil-brokers

Projeto do edifício La Vue, que causou protestos dos arquitetos em Salvador, na Bahia

O objetivo da administração Haddad é inverter o processo de desenvolvimento da cidade, que está se direcionando para o sul, trazendo-o novamente para o centro, em uma direção que interesse ao morador da Zona Leste. “Pensar estrategicamente a cidade é pensar nesses nós que precisam ser desatados para que São Paulo caminhe para o desenvolvimento desejado”, explicou. Ele defende que as marginais paulistanas se tornem as principais avenidas da cidade – “no que depender de mim, por 50 quilômetros por hora”, acrescentou, em meio aos risos da plateia, referindo-se a uma das decisões mais polêmicas de sua administração e alvo constante de seus adversários na campanha a prefeitura deste ano. “Nós temos que pensar em devolver as marginais para a cidade e buscar um desenvolvimento urbano equilibrado”.

“Precisamos romper o paradigma de pós-guerra do direito individual de deslocamento, e ir ao encontro do direito de vivermos uma cidade coletiva. Nós também temos aqui algumas Baías de Todos os Santos”, ele disse, se referindo ao projeto La Vue, que causou protestos dos arquitetos de Salvador — e a queda do ministro Geddel. “Não pode ter empreendimento em qualquer lugar. Precisamos submeter o investimento privado à ordenação que a comunidade, como um todo, fez ao estabelecer as novas diretrizes. Elas não satisfazem completamente todo mundo, ainda bem; isso significa, justamente, que ela é todos”, ele finaliza.

Conteúdos Relacionados