Os jardins que você fez para mim: Allex Colontonio revela projeto de paisagismo que encomendou ao mestre Luiz Carlos Orsini para a Casa GIZ

A pedido do jornalista e publisher de GIZ, Allex Colontonio, paisagista Luiz Carlos Orsini refaz projeto original de Roberto Burle Marx em residência paulistana de Vilanova Artigas

  • 23 agosto 2017

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A legendária Casa GIZ, único projeto que Vilanova Artigas projetou para si próprio em 1949, acaba de fazer soft opening na Jornada do Patrimônio. Na órbita da arquitetura espetacular de um dos maiores estandartes do nosso modernismo, uma joia rara extra: os jardins do não menos icônico Roberto Burle Marx, que o mestre Luiz Carlos Orsini redesenhou para caber no século 21.

E finalmente, um ano após ser anunciada (aleluia!) a Casa GIZ by Vilanova Artigas começa a dar o ar de sua graça para pouquíssimos e bons – não se sinta de fora: nem eu, dono de metadinha do business, fui convidado a prestigiar ainda. Chistes à parte, no último fim de semana (19 e 20/8), rolaram por lá algumas visitas guiadas do balacobaco em parceria com a Prefeitura de São Paulo, por conta da Jornada do Patrimônio – promovida pela Secretaria Municipal de Cultura, inspirada nas Journées Européennes du Patrimoine, na França e no Open House de Nova York, nos Estados Unidos, a ação aproxima o público de espaços e edifícios tombados que fazem parte da memória paulistana.

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Mais cosmética do que um restauro propriamente dito, considerando as restrições de tombamento e outros que tais, a reforma ficou total e irrestritamente a cargo da diretora executiva da GIZ e uma das publishers, a arquiteta Talita de Nardo Missaglia, também responsável pela ideia de instalar nossa redação lá (mas, como o mercado ainda não a conhece, fiz as vezes de conduíte: minha participação se deu mais na viabilização das marcas-parceiras que sempre apostaram no meu trabalho e a quem sou muito grato por mais este voto de confiança. Obrigado queridos! <3). Também coube a mim convocar para o nosso canteiro de obras ninguém menos do que Luiz Carlos Orsini, amigo muito querido que atendeu, gentil e prontamente, a um convite pessoal que trazia, no combo, um desafio e tanto: redesenhar os jardins originalmente projetados, em 1949, por Roberto Burle Marx (1909-1994). Pesquisando raros registros da época, Orsini, é claro, não se confinou à mera reprodução. Com verve autoral única em seu ofício, apesar de ser fã-confesso de Mister Burle (quem não é?), este mineiro que responde, entre outros feitos, pelos alqueires mais deslumbrantes do Inhotim, o maior instituto de arte a céu aberto do mundo, realizou um trabalho impecável, à altura da casca arquitetônica que cerca.

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“Basicamente, temos variedades de folhas grandes, essencialmente verdes, que se complementam e algumas pitadas de vermelho e rosáceo. O traçado é orgânico e mais organizado que a vegetação, e é limítrofe – entre o nirvana e o caos. O pedrisco vermelho é o gancho entre Burle Marx e Orsini: a pedra portuguesa vermelha triturada. O que excede são as paredes de espelho cinza, que ampliam e refletem de forma arrebatadora as dimensões do paisagismo, o que nos leva para um universo além da imaginação”

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Um adendo sobre o tamanho da encrenca que ele encontrou por lá: não bastasse a degradação, com o passar dos anos, o projeto original de Burle Marx seria descaracterizado pela própria natureza – imagine você que os passarinhos, borboletinhas, abelhinhas e outros veículos da polinização, nas últimas 75 primaveras, trouxeram toda sorte de biodiversidade de espécies invasoras nos bicos e patinhas. Assim, o elenco tropical escalado na época foi cedendo espaço a pinheiros, agaias, chefleras e por aí vai. Com a palavra, o mestre: “Como sempre digo, o importante no paisagismo são estrutura arbórea, traçado e topografia. O resto sofre com a ação do tempo e está passível de intervenções e adequações. Pois bem. A estrutura vertical é o resultado do legado de  Burle Marx e está intacta – o que são seis décadas para árvores que vivem mais de 200 anos? Tratei de reinventar um sub-bosque com cara de natureza, misturado, desorganizado, onde existe uma competição entre os indivíduos… Uma organização bipolar. Basicamente, temos variedades de folhas grandes, essencialmente verdes, que se complementam e algumas pitadas de vermelho e rosáceo. O traçado é orgânico e mais organizado que a vegetação, e é limítrofe – entre o nirvana e o caos. O pedrisco vermelho é o gancho entre Burle Marx e Orsini: a pedra portuguesa vermelha triturada. O que excede são as paredes de espelho cinza, que ampliam e refletem de forma arrebatadora as dimensões do paisagismo, o que nos leva para um universo além da imaginação”.

Tacada de mestre – e Orsini ultrapassou as fronteiras da genialidade faz tempo. O resto, te conto pessoalmente (se eu for convidado, é claro!). Podemos fazer um piquenique daqueles por lá. 😛

Luiz Carlos Orsini
@luizcarlosorsini

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