Revista Giz

03 Mai 2017 - Jul 2017

#3 | Água Viva

DécorModa

O voo do Tangará: um ensaio-glam décor + fashion no melhor estilo Grande Hotel

Com as asas abertas sobre o Parque Burle Marx, num dos raros recortes de Mata Atlântica da urbe paulistana, o Palácio Tangará canta de galo como a hospedaria mais racée dessas bandas. Algumas estrelas certificam a pompa: tem chef Michelin tocando as caçarolas e interiores deslumbrantes das áreas comuns assinados por Patricia Anastassiadis. GIZ pousou por lá num dia tumultuadíssimo – e quase foi depenada. Ainda assim, trouxemos para você um ensaio-glam décor + fashion no melhor estilo Grande Hotel

  • Direção Criativa:Allex Colontonio + André Rodrigues
  • Fotos:SALVADOR CORDARO
  • Stylist:ZUEL FERREIRA & JULIANO PESSOA
  • Make/Hair:ELIEZER LOPES
  • Modelos:MILENA GOLFETTO (@waymodel) e JULIA FUCHS (@joymgmt)
  • 5 setembro 2017
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Milena com vestido Gucci (gucci.com), clicada junto ao par de poltronas Wiggins, design Patricia Anastassiadis, Artefacto. artefacto.com.br

De nome emprestado do pássaro sul-americano que tinge a fauna brasileira em revoadas furta-cores, o Palácio Tangará é a mais nova avis rara da hotelaria brasileira. Com as asas abertas sobre 27 mil metros quadrados nos arredores do Parque Burle Marx – reserva praticamente intocável de Mata Atlântica onde o legendário paisagista carioca Roberto Burle Marx (1909-1994) atuou como diretor artístico em um dos lotes – a construção se debruça na propriedade que outrora abrigou a chácara de Francisco “Baby” Matarazzo Pignatari, neto do conde Francesco Matarazzo (1854-1937), uma das famílias mais nobres na antologia social brasileira. A antiga fazenda foi o destino perfeito para o Oetker Group cravar sua bandeira no Brasil.

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Sofá Rus, design Patricia Anastassiadis, Artefacto. artefacto.com.br. Milena usa vestido Sandro Barros. sandrobarros.com

Com 125 anos de história, mais de 400 empresas no portfólio, cerca de 30.800 funcionários e lucros anuais de 12 bilhões de euros, o Oetker está entre os mais importantes business da categoria, incorporando a mais refinada hospedaria tradicional do velho continente – como o parisiense Le Bristol. Em sua incursão por sendas brasileiras, a revitalização da propriedade ficou sob responsabilidade dos escritórios B+H Architects, PAR Arquitetura e dos classudos Luiz Ricardo Bick e William Simonato. “É o nosso primeiro hotel. Nos chamaram por conta do trabalho (arquitetura das torres e modelo decorado) que fizemos no Seridó”, me contou Simonato, por telefone, de Miami, onde está fazendo o projeto de dois apartamentos para clientes brasileiros. “Fizemos as mais de 141 suítes, em 14 diferentes variações, partindo de um mood mais contemporâneo e sempre com uma paleta de cinza no fundo”, continua. “O prédio foi construído pela Birmann, 20 anos atrás, tinha um estilo meio californiano, balaústres de granito e cimento, meio híbrido. Interferimos nas fachadas, limpamos um pouco, para um conjunto mais harmônico”, conclui Simonato.

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Milena e Julia com vestidos Rober Dognani. @roberdognani

Enquanto isso, a arquiteta deusa grega Patricia Anastassiadis, um dos nomes mais incensados da cena contemporânea brasileira, com importantes projetos no currículo desenhados em duas décadas de carreira e amplo know-how em hotelaria (ela já traçou obras para Hilton, Grand Hyatt, Ritz Carlton, Club Mediterranee e Tivoli Mofarrej), assina os interiores das áreas comuns e sociais – com ênfase no lobby, bar, spa, restaurante e salões de eventos. Um trabalho de alfaiataria arquitetônica, da casca ao conteúdo, que se inspira em documentos naturalistas como os pintados por Debret, Eckhout e Rugendas, mas que foge das obviedades e alegorias folclóricas. “Não estamos trabalhando com um Brasil regional, nem caricato. Quero mostrar que dentro desse hotel tudo é nacional: a qualidade dos nossos minerais, a sofisticação das matérias-primas, o nosso design. Falamos, sim, de um Brasil riquíssimo em belezas naturais, mas também de um dos marcos mundiais do Modernismo, de um lugar absolutamente cosmopolita – tudo mantendo o DNA dos grandes hotéis do Oetker Group. É quase um olhar estrangeiro, só que de dentro para fora”, me contou Patricia numa tarde-tour pelas dependências do hotel, poucos dias antes da inauguração.

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Julia usa vestido Gucci. gucci.com

Quando ela assumiu as obras, em 2015, o invólucro era apenas uma estrutura de cimento e pilares áridos, com fechamentos austeros. Patricia encapsulou as paredes em delicadas boiseries de baixo relevo, acentuando uma certa leveza ao que poderia ser opulento demais. Revestiu o piso com mármore e, sobre ele, plantou um “tapete” elipsoidal imenso em parquet francês, executado em padronagem solar de listras estilo chevron.

“Não estamos trabalhando com um Brasil regional, nem caricato. Quero mostrar que dentro desse hotel tudo é nacional: a qualidade dos nossos minerais, a sofisticação das matérias-primas, o nosso design. Falamos, sim, de um Brasil riquíssimo em belezas naturais, mas também de um dos marcos mundiais do Modernismo, de um lugar absolutamente cosmopolita”

Em cima de tudo, o recorte côncavo no teto criou uma espécie de domus para abrigar o espetacular trabalho de folhas de ouro da artista Laura Vinci que também evoca, de um jeito moderno, os tempos do Brasil colônia. “Não sei projetar sem história, ficaria vazio e sem sentido para mim. O que mais me inspirou foi uma gravura do Debret, com matizes acinzentados que dizem tudo sobre o olhar que o forasteiro sempre teve daqui. Este foi o ponto de partida para a paleta cromática. Fizemos um estudo cuidadoso para chegar, inclusive à tonalidade das paredes, buscando um cinza que não fosse frio”, continua.

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Milena e Julia com vestidos by Acquastudio. estherbauman.com.br

O counter da recepção faz uma releitura dos grandes hotéis franceses (em especial os legendários châteaux parisienses), em vidro, latão e couro, sinalizando a mistura fina de materiais que caracteriza o trabalho da arquiteta, que sempre tratou seu ofício como alta-costura – e inspirou este ensaio fashion. Um detalhe curioso, emocional e pragmático no processo criativo de Anastassiadis é justamente a seleção das obras de arte: ela raciocina e determina o espaço somente após a escolha dos trabalhos que vão preencher determinada área. “Não acredito na obra que entra depois do projeto pronto, pois existe uma narrativa, estou contando uma história. O layout foi planejado a partir das obras, e não o contrário”, diz sobre a legitimidade da curadoria.

Sobre bases sofisticadíssimas – que incluem um tapetão de nada menos que 200 metros quadrados desenhado por ela em dégradé e executado na Índia, via By Kamy – a mobília também é quase 100% autoral, by Artefacto. “Nosso mobiliário sempre buscou essa performance mais cosmopolita e é muito bacana vê-lo tão presente neste projeto, com tantas customizações e extremamente compatível com a qualidade do empreendimento”, diz Paulo Bacchi, CEO da marca.

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Julia vestida de Lino Villaventura. linovillaventura.com.br

Anastassiadis orquestra, em poltronas, sofás e cadeiras, referências Art Déco, Art Nouveau e orientais com certo toque aerodinâmico, curvas sensuais e proporções um pouco mais generosas. Um dos exemplos dessa originalidade é o sofá Jean, que tem shape delineado em homenagem a Jean-Georges Vongerichten, o poderoso chef 3 estrelas Michelin que está capitaneando a cozinha do Tangará – todas as mesas com vista para o parque, incluindo no reflexo dos brises de espelho que Patricia colocou por lá para não privar ninguém do espetáculo verde do Palácio que se anuncia como o mais racée do Brasil. Um voo e tanto na história da hotelaria nacional – ainda que sujeito a zonas de turbulência na decolagem.

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Julia veste vestido Lino Villaventura, linovillaventura.com.br. Mesa Linet, Vermeil (vermeil.com.br) e obra de arte LUX, de Laura Vinci. lauravinci.com.br

Carcará

Apesar da credibilidade irrefutável da bandeira europeia, é natural que no início da operação um empreendimento tão vultoso como o Tangará demande um tempinho para podar eventuais arestas. Mas o hotel que já sai do ovo exibindo uma garbosa cauda de pavão preferiu bicar a gente até sangrar, num dos ensaios mais difíceis já realizados pelo gabaritado crew que encabeça o expediente desta revista, e que chegou lá cheio de amor para dar (tamanho o capricho que alguns colaboradores chegaram a pensar que se tratava de um publieditorial – nome “fantasia” para designar matérias pagas). A experiência negativa que vivenciamos nos deu a impressão (pessoal e intransferível) de um staff que poderia estar operando na nada hospitaleira Taverna dos Thénardiers, dos Les Miserables, outro clássico francês, só que da literatura de Victor Hugo. Poderia escrever um tratado com tudo o que passamos por lá, mas a lavagem de roupa suja termina aqui, já que não se trata do interesse da coletividade – e a alfinetada só se justifica por conta do tom autoral e confidencial que adotamos em nossas mais de 300 e tantas páginas (não seríamos a GIZ se varrêssemos os quiproquós para debaixo do tapete, não é?).

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Milena com vestido de Sandro Barros. sandrobarros.com

O que vale registrar com todos os “efes” e “erres” é a qualidade manca dos serviços privados por nós na ocasião, além de algumas percepções atmosféricas. O décor é, de fato, mais do que espetacular – e acolhedor. Mas não bastasse o paisagismo de parque temático (tapumes com prints de vegetação ao redor do Burle Marx, são quase uma heresia), o climão de resort em Acapulco lá na piscina (na fachada traseira, o pastiche neoclássico da arquitetura original ainda grita) e o blasé de alguns funcionários que confundem sofisticação com arrogância, a conta é mais salgada do que carne de charque. Lá no bar do lobby, longe das caçarolas do Jean, pagamos mais de R$ 100 por uma pasta crua (note que eu não escrevi al dente) que demorou uma hora e 10 minutos entre o pedido e a chegada à mesa. Sem falar nos 90 reais do estacionamento. Isso tudo e mais as ciscadas pujantes no meu dorso fazem lembrar que Tangará rima com Carcará, a ave de rapina que Chico Buarque descreveu naquele que seria o primeiro grande hit de Maria Bethânia, nos anos 1960, era de ouro da grande hotelaria mundial, incluindo o Le Bristol: “Carcará é malvado, é valentão, é a ave de lá do meu sertão… os burrego novinho não pode andá, ele puxa no umbigo inté matá, Carcará…”.

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Registro da arquiteta Patricia Anastassiadis com a mesa Pedro Petry. pedropetry.com.br

 

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