A cidade é para ser vivida: arquitetura, design e paisagismo em prol de um mundo mais justo

Conheça melhor as histórias, projetos e profissionais que procuram incentivar interações sociais por meio do design em grandes centros urbanos como RJ e SP

  • Por:Iara Aurora
  • 18 novembro 2016
giz-design-intervencoes-sociais-felipe-morozini-minhocao-01

Poltrona da Estar Móveis colocada por Felipe Morozini no Minhocão em 2015

Pessoas pedalando de bicicleta, outras tantas aproveitando para caminhar, crianças brincando juntas, jogando bola, pulando amarelinha e um grupo de amigos sentados em cadeiras de praia tomando um pouco de cerveja gelada. Tudo isso acontecendo em cima de um viaduto, um dos mais frequentados de São Paulo, o Minhocão. Embora a passagem, que tem 2,8 km de extensão, receba de segunda a sexta-feira fluxo diário de 70 mil veículos, nos finais de semana, sempre das 15h de sábado até às 06h30 da manhã de segunda, o elevado se transforma em um grande parque em cima do asfalto e traz, de maneira bem particular, uma série de interações que procuram reforçar o convívio dos pedestres, melhorar a qualidade de vida das pessoas e proporcionar acesso ao lazer.

giz-design-intervencoes-sociais-felipe-morozini-foto-andre-porto

Para Felipe Morozini subverter a ordem natural da rua é uma forma de causar pequenos ruídos e grandes reflexões

Montagem de salas de estar com tapetes felpudos, estofados confortáveis e mesas para refeições, além de cantinhos para leitura com muitos livros infantis são alguns exemplos de iniciativas já promovidas no Minhocão. Por trás das intervenções realizadas na via está Felipe Morozini – fotógrafo, cenógrafo, designer e diretor da Associação Parque do Minhocão, que defende a transformação do Elevado Presidente João Goulart (nome oficial do Minhocão) em parque permanente. “Eu consigo enxergar a importância dessas atividades entre experiências sociais e estéticas. Pintar flores gigantes no asfalto ou colocar um sofá de design muito confortável com um tapete branco bem felpudo e macio em cima do asfalto é subverter a ordem natural da rua, mas não o seu propósito, causando pequenos ruídos e grandes reflexões”, explica Morozini. A citação de desenhar flores sob o chão de cimento foi algo efetivamente colocado em prática pelo artista, quem em 2009 realizou a intervenção urbana “Jardim Suspenso da Babilônia”, no Minhocão. O trabalho foi transformado em curta-metragem dirigido por Jeorge Simas e ganhou prêmio de júri no Babelgum, festival de cinema e internet de Nova York. Assista na sequência:

Para Morozini, design é também uma forma de diálogo. Seus trabalhos, criações e iniciativas – que flertam com as impossibilidades, com o que não existe – são uma maneira de conversar, se entrosar e relacionar com a sociedade, ou seja, uma maneira de se fazer design.”Essas iniciativas melhoram a vida das pessoas na medida que provocam novos pensamentos e experiências, sejam práticas ou poéticas”, pontua.

giz-design-intervencoes-sociais-felipe-morozini-minhocao-14

Uma completa sala de estar montada por Morozini em parceria com a Estar Móveis no meio do Minhocão

Saindo de São Paulo e indo para o Rio de Janeiro, entra em cena o Grupo MUDA, coletivo formado pelos arquitetos Diego Uribbe, Duke Capellão e Rodrigo Kalache além da dupla de designers Bruna Vieira e João Tolentino. Juntos desde 2011, os profissionais realizam uma série de manifestações artísticas com painéis feitos de azulejos coloridos que invadem as paredes cinzas e degradadas da metrópole.

giz-design-intervencoes-sociais-muda

Coletivo MUDA: da esquerda para a direita Rodrigo Kalache, Diego Uribbe, Duke Capellão, João Tolentino e Bruna Vieira

“Nosso trabalho intervém no dia a dia da cidade, na rotina das pessoas. Acreditamos que com o que fazemos chamamos atenção para a paisagem de certos locais que muitas vezes são despercebidos por quem frequenta e passa por eles”, explica Rodrigo.

giz-design-intervencoes-sociais-muda-festival-concreto-fortaleza

Painel do MUDA em Fortaleza, no Ceará

De acordo com o arquiteto, todos os projetos feitos pelo coletivo são significativos e especiais para o MUDA. “Cada local tem a sua história e o seu porque, seja por sua escolha que se deu pela vivência de um dos integrantes do grupo com o espaço ou pelo tamanho e escala do painel, como foi no Largo da Carioca, em 2011, o Riscadão do Jardim Botânico, o que fizemos recentemente na Rodrigues Alves”revela o integrante do coletivo.

giz-design-intervencoes-sociais-muda-painel-fixo-hospital-copastar

Painel fixo do coletivo MUDA no Hospital Copa Star, em Copacabana, no RJ

Mesmo com escritório instalado na Cidade Maravilhosa, o MUDA não atua somente em território carioca. “Hoje em dia buscamos intervir cada vez mais em cidades maiores e diferentes, então temos buscado editais, parceiros privados, dialogar sempre com a prefeitura para viabilizar iniciativas como as que fazemos e também apostar no financiamento coletivo” explica ele. São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina são os estados brasileiros que já receberam painéis do MUDA, assim como as cidades de fora a exemplo de Nova York, Buenos Aires, Havana, Florença e Roma, além das lusitanas Lisboa, Sintra, Porto e Guimarães.

giz-design-intervencoes-sociais-christian-ullmann

“Desenhar para as pessoas é o sentido do design”, diz Christian Ullmann, coordenador e professor do IED (Istituto Europeo di Design)

Para Christian Ullmann, coordenador de projetos exploratórios de design e professor de design, sustentabilidade e responsabilidade social do Istituto Europeo di Design (IED), entender o design como uma ferramenta de mudança social é uma grande oportunidade e desafio dos profissionais de desenho.”Quantos mais designers, professores, empresários e governos entendermos isso, mais vamos poder colaborar com a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Desenhar para as pessoas é o sentido do design”, finaliza o docente.

Conteúdos Relacionados