Vou ali e não volto: confira aqui os bastidores (e alguns gossips) da Casa Cor SP 2017

Na dança das cadeiras da Casa Cor 2017, quem ficou e quem caiu na polêmica arquibancada que desbancou os nomes mais monumentais da mostra por não suportar o peso dos projetos nababescos

  • 23 maio 2017

Há cerca de um mês, o circuito do décor ficou em polvorosa com um bafafá sem precedentes na história da mostra: a desistência de grandes feras que estavam na linha de frente da Casa Cor. O primeiro masterpiece a declinar foi Dado Castello Branco. Na sequência, Roberto Migotto. Nos bastidores, as teorias se multiplicavam, em versões antagônicas. Uma delas dava conta de que o projeto de Migotto, rigorosíssimo com o sigilo de suas obras (o que não é de se estranhar, já que ele é um dos mais originais – e imitados –, sempre) teria vazado por uma inabilidade de determinada construtora. A segunda, de que a plataforma de sua área era tipo “balança mas não cai” – e que Migotto, sambista de primeira e traumatizado com os últimos acontecimentos na Marquês de Sapucaí, teria ficado em pânico. E a última, de que ele e seus colegas do primeiro escalão estariam mais focados em fazer e acontecer na primeira edição norte-americana da Casa Cor, que promete sacudir Miami em novembro, e não poderiam queimar munição agora. “Tem um pouco de verdade em cada uma dessas fofocas”, contou-me uma fonte que prefere não se identificar. Mas como a gente mata a cobra e mostra o pau, com a palavra, Monsieur Migotto em si, com a seriedade de sempre: “As pessoas inventam muita história. Fiz um projeto com muito carinho, desenvolvi em cima daquilo que seria uma plataforma sólida e segura, que é o que se espera de uma base, mas as empresas de engenharia diagnosticaram que o local não era compatível com o meu projeto e preferi não correr riscos estruturais ali – a arquibancada é tombada e seria impossível fazer as fixações necessárias. Chegaram a nos oferecer outro espaço, mas como estava com aquele projeto elaboradíssimo pronto e sem tempo hábil, preferi engavetar e focar em Miami”, contou-me o starchitect.

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O “Abrigo de Memórias”, do carioca Duda Porto, partiu da importância da valorização de cada instante com o que é essencial, aliando simplicidade e sofisticação. O ambiente retrata a cidade quando era uma aldeia no topo da colina por meio da reprodução das moradias ancestrais na paisagem do Jockey. A arquibancada ganhou um platô com deques de madeira de demolição reaproveitada e uma área de jardim cultivado em placas modulares com sistema de irrigação por gotejamento, onde o arquiteto construiu quatro cabanas que representam momentos da vida

No vácuo de Migotto, cuja casa monumental contava com pé direito duplo e piscina (quem viu, garante que era um tapa na cara da sociedade, como já esperamos do mestre), outro nome estelar, João Armentano, também teria desistido, pelas mesmas desventuras técnicas. E, no rastro de ambos, até o vizinho caçulinha, Nildo José – revelação no ano passado, com sua bela jabuticabeira suspensa (que teve um pitaquinho leve deste editor que vos escreve) também saltou de banda. “Foi apenas uma pausa e em 2018 estaremos juntos novamente. Uma obra em cima de uma plataforma tem uma série de questões que muitos desconhecem, é um desafio principalmente considerando o curto tempo de construção que se tem para uma mostra. Diante de situações como peso e revisões estruturais, decidimos nos desligar numa boa”, conta o jovem arquiteto baiano, sem mágoas.

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A “Casa Cosmos” by Michel Safatle tem cada cantinho pensado para a necessidade de conviver com o essencial, aquilo que faz sentido, que possui relevância, verdade, e que já teve seu valor legitimado pelo tempo. Com vista privilegiada, a morada se vale de uma atmosfera que emociona e que possui uma mensagem sedutora, escrita através dos dois altares, simétricos, que rasgam as paredes laterais deste volume e que expõem arte como esculturas 70’s, de Toyota, a geometria de Cruz-Diez ou uma delicada sequência de papéis atribuídos a Isamu Noguchi

Guilherme Torres, outro dos nomes mais incensados (ele adora quando uso essa palavra) do País, que havia declinado do convite inicial, chegou a cogitar uma participação temporã lá na plataforma, e até  desenhou um projeto tipo fabuloso (eu vi com esses olhos que a terra há de comer!), mas também revogou. “Eu nem entrei, só sondei”, desconversa.

“Quisemos aproveitar a área das arquibancadas para justamente prestigiar os profissionais com um elemento arquitetônico original e privilegiadíssimo: um dos skylines mais bonitos da cidade. Em uma edição histórica da Casa Cor, muitos anos atrás, o arquiteto Fernando Brandão fez uma casa de vidro que foi o maior sucesso. Instalamos a plataforma, mas pensando na ocupação de projetos mais leves. Ela tinha limitações de peso óbvias, o que demandaria algumas adaptações e reforços estruturais nos projetos dos arquitetos, que optaram por sair”, conta Pedro Ariel.

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Mais um registro da “Casa Cosmos”, do arquiteto Michel Safatle, que leva uma paleta desmaiada mas nem por isso apática, tudo muito equalizado e de bom gosto – ao estilo do dono do pedaço

Não foi o caso de Michel Safatle, que divide o platô “voador” com Duda Porto (que desenhou cabaninhas bem leves, se apropriando do discurso vigente da arquitetura nômade) e encarou o desafio. Debruçado em frente à pista, o volume arquitetônico desenhado por Safatle é praticamente auto-portante, sustentado por apoios lançados até o nível das arquibancadas, e fixado na base construída especialmente para esta ocasião, sem um único parafuso, “flutuando” sobre a paisagem. Na prática, um exercício de contenção de carga  + racionalismo, outro de genialidade, considerando o fluxo de visitantes e a incidência de ventos fortes por ali. O resultado, discreto e elegante, em referência ao minimalismo oriental e misteriosamente concebido como um cubo preto fechado nas laterais “para instigar quem pisa na plataforma”, é pra lá de engenhoso – e criativo.