Arte pop brasileira na casa contemporânea

Projeto liderado por jornalista e fotógrafas de décor revela as histórias dos grandes artesãos do sertão do Brasil

  • Texto:Iara Aurora
  • 27 outubro 2016
giz-projeto-sertoes-1

Projeto Sertões: iniciativa liderada pela editora visual e jornalista Zizi Carderari e as fotógrafas Evelyn Müller e Manu Oristanio

“Pinte a sua aldeia que ela será universal”. É assim, parafraseando um amigo que usou um dos pensamentos do escritor russo Leon Tolstoi para incentivar o artesanato da cultura local, que João das Alagoas explica o porquê desenvolve suas esculturas com barro. Artesão considerado patrimônio vivo do estado citado em seu nome, no Nordeste brasileiro, ele é um dos personagens que ilustram o projeto Sertões, iniciativa liderada pela editora visual e jornalista Zizi Carderari e as fotógrafas Evelyn Müller e Manu Oristanio, que teve lançamento no dia 21 de outubro, na loja Esther Giobbi.

“Queremos inserir a arte popular brasileira na decoração contemporânea e dar visibilidade aos artistas que a produzem, divulgando o potencial artístico brasileiro,” diz Zizi, ao falar sobre o objetivo de sua ação. “Mais do que a divulgação, também queremos preservar as tradições e cultura brasileira que estão em vias de extinção”, completa Evelyn, de 47 anos.

giz-projeto-sertoes-2

Manu Oristanio, Zizi Carderari e Evelyn Müller

Jornalista com 60 anos de idade, Zizi está há quatro décadas na profissão e tem quase duas de trabalho dedicados a cobertura de decoração, design e designer têxtil. Dessa vivência com o mundo da arte visual é que teve conhecimento do trabalho realizado pelas arquitetas Janete Costa (1932-2008) e Lina Bo Bardi (1914-1992), duas de suas grandes inspirações para lançar o Sertões. “De certa maneira, minha ideia é uma forma de homenagear e dar continuidade ao trabalho dessas mulheres maravilhosas”, complementa Zizi.

De Garanhuns, PE, Janete foi uma das mais ativas divulgadoras da arte popular e do artesanato feito no Brasil. Em seus projetos, buscava trabalhar com a inclusão social e gerar renda para os artistas que ajudava a divulgar. Lina, por sua vez, sempre mostrou uma imensa admiração pela cultura popular, e, após viver na Bahia e dirigir o MAM (Museu de Arte Moderna) do estado nordestino, passou a registrar os hábitos, culturas e tradições do povo da região em suas criações. Ela também assinou a grande reforma do Solar do Unhão, um dos complexos arquitetônicos mais importantes de Salvador, onde se encontra o MAM.

Iniciado em outubro de 2015, o Sertões é uma série multimídia que, a partir de uma expedição realizada no estado a ser conhecido, dá origem a documentário em vídeo, fotos registradas pela dupla Evelyn e Manu e, posteriormente, livro. A obra, ainda sem previsão para lançamento por falta de patrocinador, deverá contar a história do sertão visitado, as particularidades dos artistas que vivem na região e o trabalho que realizam.

Como o primeiro dos destinos explorados pelo trio de profissionais foi o estado do Alagoas, o documentário sobre a viagem – no qual inclusive se encontra a fala do artista João das Alagoas citada no abre dessa matéria – está disponível no Youtube. Nele, há depoimentos de consumidores do artesanato nordestino e exemplos de interiores modernos que adotam peças sertanejas na composição, além é claro, de entrevistas com artesãos da localidade.

Para a jovem fotógrafa Manu, de 27 anos, participar dos Sertões é uma chance de ampliar não apenas o seu olhar sobre o universo artesanal como também conhecer as heranças culturais deste imenso Brasil. Graduada em sociologia, há oito anos ela se dedica ao registro de retratos do universo de casas, decoração e design. “O que mais me marcou na expedição Alagoas foi a riqueza do nosso território e a imaginação dos artistas que ultrapassam as fronteiras territoriais e dialogam com o inconsciente coletivo dos artesãos da região”, revela a moça.

Artistas assim como Irinéia Rosa Nunes da Silva, conhecida como Dona Irinéia e considerada uma das melhores artesãs de barro do Alagoas, com peças presentes até mesmo nos catálogos da cultura popular elaborados pelo MinC (Ministério da Cultura). No doc também está Zezinho do Arapiraca, escultor de madeira e dono de objetos repletos de cor, à exemplo de sereias, bonecos e animais, como também Poliana, bordadeira de Boa Noite da Ilha do Ferro,AL. Técnica de costura realizada unicamente neste vilarejo, trata-se de um processo onde os fios dos tecidos são desfiados e transformados em desenhos florais, em alusão a espécie Boa Noite, flor muito presente na região da Caatinga.

Neste mês, um ano após a primeira expedição, Zizi, Evelyn e Manu planejam desbravar Sergipe a procura da cultura da região, o artesanato local e o perfil dos artistas que vivem e atuam no estado. “O Sertões é um projeto de vida, pois sempre teremos Sertões para desbravar e lugares para descobrir”, finaliza Zizi.

Para conferir ao vivo e em cores os trabalhos dos artesãos coletados no estado alagoano ao longo da primeira viagem do grupo, basta marcar presença no evento de lançamento. “O evento na Esther Giobbi será uma exposição com obras de arte da Ilha do Ferro, painéis de bordado e uma projeção de vídeo com imagens da expedição Alagoas”, conta Manu.

Projeto Sertões
casadosoutros.com.br/projeto-sertoes