“Chuva Dourada na Casa Branca”: a jornalista Cynthia Garcia analisa códigos visuais do clã Trump

A jornalista e historiadora Cynthia Garcia faz uma análise comportamental sobre a polêmica posse do presidente americano Donald Trump

  • 23 janeiro 2017
  • Por:Cynthia Garcia
  • Texto:

Bush, Obama e Trump são entrevistados por Deus para o cargo de presidente dos Estados Unidos. Deus para Bush: “Seus planos?”. Bush para Deus: “Uma América forte”. Deus para Bush: “Sente-se à minha direita”. Deus para Obama: “Seus planos?”. Obama para Deus: “Fortalecer a democracia e a paz mundial”. Deus para Obama: “Sente-se à minha esquerda”. Deus para Trump: “Seus planos?”. Trump para Deus: “O Senhor está na minha cadeira” (*)

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Roupa nova do rei: Potus de Brioni, Flotus de Hervé Pierre no Liberty Ball, na posse chocha

Esta não é uma crônica sobre a moda durante a violenta, vergonhosa e vazia posse de Trump, mas abri um “P.S.” no final. Em respeito à ocasião, as câmeras de TV evitaram filmar os espaços sem público na esplanada do Capitólio. Entre elas as da CNN, vilipendiada por Trump & asseclas pela seriedade de seu time profissional. O canal a cabo, com o apresentador-estrela, Anderson Cooper (gay assumido, com casa em Trancoso), foi fundado por Ted Turner, ex da atriz-ativista Jane Fonda. Um dia antes, linda aos 79 anos, Jane declarou no programa do humorista político Bill Maher: “Não falo o nome dele (Trump), para mim ele não é (presidente), ele é ‘The Predator’ (o predador)”. Outro título, mas da esfera oficial, para designar Trump é POTUS (President Of The United States), equivalente masculino horroroso do igualmente horrendo FLOTUS (First Lady Of The United States). Americano adora abreviar…

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Marvelous Melania no baile oficial, em Washington. Cuidado, Donald!

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No baile de gala, o 2º casal, Jared + voraz Ivanka de Carolina Herrera boa para Barbie

Um dia antes da posse, no show de música diante do Lincoln Memorial, em Washington, o 2º casal, Ivanka & Jared, aguentou firme ao relento gelado, segurando a risada com a set list deplorável. Em voraz Ivanka corre sangue Trump – ela vendeu a alma ao diabo – e transmitiu o faustiano vírus ao marido. No quesito deplorável, o baile com o desajeitado POTUS a “dançar” com a bonita FLOTUS no descompasso de seu próprio ritmo à melosa “My Way”, escolhida por ele, síntese em duas palavras e símbolo em cinco tweets do mandato imperialista do 45º presidente nesses próximos quatro anos, caso chegue lá.

Sábado, Washington foi invadida por um mar de capuz cor de rosa tricotado com par de orelhas de gatinha. O pink pussy hat alude ao termo pussy, gíria com a qual o candidato se referiu às mulheres pelo sexo no famigerado vídeo. Ao em vez da passeata de 200 mil, informada pelos organizadores à prefeitura, a manifestação inclusiva, plural, multiétnica contabilizou mais de um milhão de mulheres, gays, imigrantes, muçulmanos, mexicanos, negros, deficientes, gordos, todas as minorias confrontadas pelo então candidato e famílias inteiras a favor, entre outras, da manutenção do Obamacare, apelido do seguro de saúde criado pelo ex-presidente. Até homens heterossexuais e uma minoria de mulheres votantes de Trump de visão menos radical participaram. O movimento ganhou o Facebook, marchou em várias cidades nos EUA, Nova York incluída, e em capitais ao redor do planeta, totalizando 600 demonstrações. Em Washington, a primeira dama do feminismo, Gloria Steinem subiu ao palanque, mas quem inflamou foi Madonna ao bradar duas vezes F— you! ao microfone, dirigido ao POTUS. Linguagem chula? Mínima se comparada à lista de impropérios do então candidato direcionados aos segmentos mais vulneráveis da sociedade ao longo da corrida presidencial mais torpe da história mundial.

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Madonna na Marcha das Mulheres bradou “F— You” ao novo presidente duas vezes ao microfone, Washington, 21/01/17

“Dossiê Golden Shower”

A sordidez de Trump representa o paradoxo e o dark side da sociedade norte-americana. Em novembro de 2013, na visita à Rússia, o magnata ocupou a suíte presidencial no Ritz-Carlton de Moscou, grampeada por vídeos e escutas da KGB. Putin, recentemente, declarou ser ridículo imaginar que todo americano a negócios no país é rastreado por sua agência de segurança. Acontece que Trump foi grampeado. O agente do MI-6, o inglês Chris Steele, interceptou os vídeos e dirigiu um dossiê de 35 páginas à CIA em julho do ano passado, mês em que Trump foi eleito candidato oficial dos republicanos. Historicamente protecionista e conservadora, a CIA, em tese uma agência governamental apartidária, sempre pendeu para as ideias retrógradas republicanas. Ao receber o dossiê-bomba, o diretor da agência inverteu a direção do escândalo liberando boatos sobre os e-mails da candidata democrata há duas semanas da eleição presidencial. Deu no que deu, Hillary dançou, o Estados Unidos perdeu a primeira chance de ter uma presidente mulher. Mas o material vazou. Na estadia em Moscou, Trump fez uma ponta em um clipe com misses de biquíni à convite do playboy pop-star Emin Agalarov

Ovelha negra do bilionário russo Aras Agalarov, Emin foi casado com Leyla Aiyeva, filha lindíssima do ex presidente-ditador do Azerbaijão. Mas este não é o vídeo da polêmica. O da KGB, agora de posse da CIA, filmou Trump com um grupo de prostitutas praticando urofilia: o ato de urinar durante o sexo. Sim, isso mesmo. Em inglês “golden shower” (chuva dourada) significa: a) urinar no outro durante o ato sexual; b) ser urinado pelo outro durante o ato sexual; c) as duas opções anteriores. A bizarrice na cama da suíte presidencial demonstra o ódio de Trump por Obama e, claro, o grau de sua vingativa insanidade. O então presidente Obama dormiu nela duas noites com Michelle em julho de 2009, primeira visita oficial de um presidente americano à União Soviética em 18 anos. Hillary estava certa, deplorável é pouco.

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Mar de capuz cor de rosa tricotado com par de orelhas de gatinha na Marcha das Mulheres em Washington, sábado, 21/01/17

Desde os anos 60, durante os explosivos protestos contra a guerra do Vietnã, a nação não ficava tão inflamada. Em minoria no congresso e no senado, os  democratas miram impichar Trump. Igual desejo é compartilhado por seus  detratores republicanos, como o senador John McCain, que preferem no poder o moderado vice presidente Mike Pence, um evangélico mais fácil de manipular. O planeta está de olho. A passeata de sábado sacudiu o povo americano da zona de conforto do American way of life?

“Fashion na 45ª dinastia”

Acertei a previsão sobre os estilistas na crônica que assinei para GIZ, postado em 17/01/17. Para o chocho baile de gala, a primeira filha, Ivanka, desfilou um modelo de debutante em tule bordado em tom nude de Carolina Herrera (a quem já entrevistei). Voraz Ivanka é mais chic que o modelito bom para Barbie. Ao contrário da expectativa geral, Flotus Melania optou pela discrição do vestido em crepe tom marfim muito bem cortado, elegantíssimo, do desconhecido Hervé Pierre, francês que vive em Nova York. Até fevereiro de 2016, o estilista fazia parte da equipe de Herrera onde trabalhou nos últimos 14 anos. M&M (marvelous Melania) no cargo de Flotus, melhor discreta que esfuziante. Mas foi ao meio dia, na cerimônia de posse, que M&M arrasou de Ralph Lauren inspirado em modelo rosa usado por Jackie Kennedy, em 1962, com a mesma gola alta transpassada em viés. Só deu ela no ensemble vestido + bolero em cashmere, escarpin e luvas longas de couro, tudo ton-sur-ton, doravante denominado Melania blue.

 

Jackie Kennedy, Casa Branca, 1962, com modelo que inspirou o look Ralph Lauren azul exibido por Flotus Melania na cerimonia de posse

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Flotus Melania divina de Ralph Lauren inspirado em Jackie Kennedy na cerimonia de posse, Washington, 20/01/17

E o oscar de mau gosto? Foi para Kellyanne Conway, 49 anos, alta assessora de Trump que ocupa o cargo de secretária de imprensa da Casa Branca. Conhecida como “conselheira de pé de ouvido de Trump”, é primeira mulher a conduzir com sucesso uma campanha presidencial. Conservadora radical, é contra o aborto e a favor das leis de imigração propostas por Trump. Que ninguém brigue com essa loura com maxilar de aligátor, ela é um tropel de serpentes do pântano, que o diga Anderson Cooper. Na cerimônia de posse, a republicana roxa “marchou” de casaco Gucci da coleção Resort 2017 nas cores da bandeira: red-white-and-blue. Como disse uma amiga minha muito chic: “Pensei que fosse uma baliza”…

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De “baliza” nas cores da bandeira, Kellyanne Conway, a poderosa assessora do presidente, marcha de casaco Gucci na cerimonia de posse

Kellyanne Conway de “baliza” Gucci:

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