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A historiadora de arte e jornalista Cynthia Garcia viveu lá de 1972 a 1978, quando cursou o Fleming College Florence no Viale Michelangelo

  • 19 dezembro 2016

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Itália, fascinante, paradoxal.  Nos anos 60, a juventude era mal vista nesta terra conservadora, católica, rica em tesouros inestimáveis. Mas não fossem esses mesmos cabeludos de jeans, Florença, um dos patrimônios culturais da humanidade, seria só uma lenda. Após um mês de chuva sem sol, o rio Arno invade a cidade-berço da Renascimento na madrugada de 4 de novembro de 1966 após 18 horas de tempestade torrencial. Passadas duas horas, Firenze, seu nome em italiano, estava sem eletricidade, museus e igrejas devastados, com águas diluvianas alcançando seis metros na Piazza Santa Croce, região mais atingida.

giz-florenca-05Às nove da manhã, o composto de água e lama, numa fúria tom chocolate estimada em 225 mil galões por segundo, penetrou a Basílica de Santa Maria dei Fiore, catedral símbolo do Renascimento. Sua cúpula, il Duomo, projetada pelo arquiteto Brunelleschi, em 1436, foi a maior do mundo até o século 19 e marca o início do histórico período das artes e das descobertas. Florença é assim, tudo é história, arte e arquitetura no superlativo. Nos séculos 15 e 16, a capital da Toscana foi o centro comercial e cultural mais próspero e criativo do Ocidente.

giz-florenca-06aAo meio dia, a cidade de Da Vinci, Galileu, Dante, Giotto, Boccacio, Botticeli, Machiavelli, Michelangelo, Donatello, Américo Vespúcio (sim, o escrivão de nossa descoberta), alagada, carros uns sobre os outros, a tempestade cessou deixando um silêncio apocalíptico. Janelas foram se abrindo, gente incrédula com expressão de pânico. Um concerto de vozes grita por familiares, amigos, vizinhos. Giovanni! Caterina! Piero! Rapazes e moças, munidos de baldes e pás, saem dos abrigos em direção ao centro medieval, a Piazza della Signoria. Ali a cópia da escultura do David de Michelangelo (a autêntica está na Galleria dell’Accademia) fita do alto tudo e todos com seu olhar indômito. Eles também não serão vencidos por esse Golias das águas. Durante semanas, noite e dia, esses jovens lutam para retirar do lodo toneladas de livros, documentos, quadros, uma infinidade de obras culturais de toda natureza. Não era toda aquela beleza, todo aquele saber que os atraía à cidade às margens do Arno?

Foi o primeiro dilúvio midiatizado. Quem tinha filmadora e máquina de fotografia, registrou o que pode com o filme que restava, afinal as lojas estavam alagadas. O diretor Franco Zeffirelli, florentino de nascimento, largou o set em Roma para documentar o aluvião em um filme com narração do amigo Richard Burton, apelando por ajuda. Jackie Kennedy Onassis foi uma das primeiras a enviar uma comitiva de especialistas para salvar as obras de arte. Em um movimento de solidariedade internacional sem igual cerca de 3 mil organizações e amantes das artes enviaram esforços em auxílio ao patrimônio profanado.

giz-florenca-04A mobilização espontânea tomou vulto, atraiu jovens voluntários de vários países. Na época, foram batizados anjos da lama, “Mud Angels” ou “Angeli del Fango”, título do livro (sem versão em português), lançado esse ano pela editora Giunti, de Erasmo De Angelis, ele mesmo um desses “anjos” sujos de lama que socorreram o legado cultural de Florença. Diz De Angelis: “Em 66, não havia na Itália segurança civil ou instituição capaz de prever um evento dessa ordem.

giz-florenca-02Florença ficou isolada por três dias e três noites. Foram os angeli del fango que criaram a primeira rede de voluntariado no país”.  Hoje, placas no centro histórico indicam a altura máxima a que chegaram as águas.

giz-florenca-01Na esteira de eventos que rememoram a inundação, 2016 finaliza com a restauração de “A última ceia” (1543) do pintor e historiador Giorgio Vasari (1511-1574). A têmpera pintada sobre madeira composta por oito painéis, totalizando 2.40m X 6m de altura, esteve doze horas submersa há 50 anos. O restauro feito pela Getty Foundation, iniciado em 2010, teve apoio da Prada. Desde 4 de novembro a obra de Vasari volta ao Museo dell’Opera di Santa Croce.

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