Por meio de produções conceituais em vídeo, Augusto Custódio desponta no mercado da arquitetura com uma forma pouco explorada de criação de conteúdo

Depois de anos à frente de uma agência publicitária, diretor de arte e de fotografia se dedica agora ao registro artístico e humanizado de ambientes em união à memória de profissionais da arquitetura e dos interiores

  • 11 dezembro 2017

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Imagens impactantes, músicas idem, e projetos de arquitetura e interiores de aflorada expressão artística. Um olhar sensível que mira nas pranchetas de escritórios arquitetônicos e as despe para além do que pode ser visto a olho nu. É com produções em vídeo de teor mais cinematográfico que Augusto Custódio vem desbravando este nicho desde o começo do ano, com trabalhos que, por meio da ilustração, inserção e divulgação de lares, cômodos, profissionais, exploram possibilidades mais inéditas de abordagem humanizada em um setor em que cresce a eficácia deste tipo de divulgação.

“O mercado de arquitetura tem um potencial incrível para explorar o conteúdo em vídeo. Todo projeto tem uma história, e meu papel é contá-la da melhor forma possível. Materializar isso por trás das lentes de uma forma que eu consiga envolver e despertar sentimentos e emoções”, acredita o diretor de arte e fotografia.

Apesar de declarado apreciador e consumidor de design, foi em janeiro de 2017 que Augusto percebeu o potencial deste negócio, quando o designer de interiores e colega Newton Lima o apresentou à demanda de Denilson Machado em relação ao seu então futuro livro de fotografias “Não me obrigue a fazer sentido” (sobre o qual publicamos aqui). Denilson e Augusto se juntaram em uma parceria em que o fotógrafo apresentaria em vídeo não apenas sua publicação impressa, como sua história e seu trabalho. “O Denilson é um cara muito bacana. Ele me ajudou muito, acredita muito no meu trabalho. E eu o admiro muito porque outras tantas pessoas, no lugar dele, poderiam me ver como um produto de concorrência (não chamo nem de concorrência porque ele está muito distante de mim, é um cara muito especializado e profissional, já estampou as capas da melhor revista de arquitetura). Mas ele nunca questionou me inserir dentro do nicho de contatos dele”, comenta.

O vídeo foi um estouro — dezenas de milhares de visualizações. E a boa fama, de boca em boca, chegou também ao pessoal do Yamagata Arquitetura. Aldi Flosi, Paloma Yamagata e Bruno Rangel queriam registrar a Casa Niwa, seu projeto na Casa Cor São Paulo, de um jeito diferente. Daí, pouco tempo levou até alçar voo para os espaços de Leandro Neves e de Claudia Pimenta e Patricia Franco na Casa Cor Rio de Janeiro e, mais recentemente, para a versão de Miami da mostra, onde foi de encontro aos trabalhos de Roberto Migotto, Gustavo Neves e Leo Shehtman — por esta visibilidade, inclusive, diz ter sido muito procurado até mesmo pelo pessoal da moda, mas já esclarece que a equipe está muito focada na nova oportunidade encontrada. O próximo passo vai em linha reta, mas ainda mais longe: é no mercado internacional que deve prospectar novos clientes.

Augusto encara cada trabalho como um desafio diferente. Desde que deixou de trabalhar com uma publicidade estritamente comercial ao perceber um novo mercado pouco explorado com um público alvo até então fora de seu conhecimento, o que aconteceu em 2016, pode passar a exercer a liberdade de trabalhar sua aparentemente ilimitada capacidade criativa, convertendo-a em vídeos que revelam aspectos além do óbvio e imediatamente legível. “Não gosto de fazer registros sobre arquitetura de espaços vazios, tento sempre dar uma personificação. Posso imprimir minha visão de arte e meu conceito criativo nesses vídeos, algo geralmente restrito no mercado publicitário”, comenta. E Augusto fala com conhecimento de causa: tem no portfólio o atendimento a grandes marcas como Cola Cola, Hyundai e Cyrela. Desde esses tempos, porém, já trabalhava com audiovisual. “Eu não vejo nada nos próximos 5, 10 anos, algo que substitua o vídeo. Ele pode mudar o seu formato, surgir com uma nova tecnologia ou em uma nova mídia social, mas não acredito que vá ser superado tão cedo”.

A fome por inventar o acompanha desde pequeno, na verdade, e foi ela a responsável por redirecionar sua rota já na vida adulta. Aos nove anos de idade, Augusto se mudou para Portugal, onde cresceu e se graduou em Economia pela Universidade do Porto. Em 2003, recém-formado e de volta ao Brasil, trabalhou durante dois anos para empresas que não tinham relação com a Publicidade que por um bom tempo seria sua atividade diária. Depois, no início dos anos 2000, com espírito empreendedor e visionário surfou no boom da internet para se lançar no mundo da publicidade digital. Começou a ganhar terreno e, impulsionado pelo gene criativo, se aprofundou por meio de cursos mais específicos.

Hoje comanda uma equipe de cinco profissionais em o que, formalmente, costuma chamar de produtora de conteúdo — mas, no âmago, acredita que seja esta uma nominação muito superficial diante da aspiração experimental que seguem: “A gente quer fazer vídeos incríveis”. Em tempos de mídias sociais relevantes e, ao mesmo tempo, fugazes, é natural que o modelo de criação se difunda, o que sugere a necessidade de estabelecimento de elementos de destaque meio a disputados e escassos tempo e atenção. “Tem que envolver, emocionar, fazer o cara lembrar da infância dele. Tem que tocar muito forte. Porque por trás do trabalho do próprio arquiteto existe um conceito artístico. Busco fazer isso de forma personificada, criando um espaço de fácil identificação e que desperta emoções.”

A mais recente empreitada é o registro dos bastidores e da produção do concerto “Jazz & Divas — Uma homenagem a Elza Soares”, que marca a reabertura do Auditório Simón Bolívar do Memorial da América Latina, em São Paulo, quando Liniker, As Bahias e A Cozinha Mineira, Sandra de Sá, Paula Lima, Baby do Brasil, Vânia Bastos e Rosana se juntam à Orquestra Jazz Sinfônica e à própria cantora para prestigiar a contribuição do ícone da MPB à cultura nacional. Segundo documentário da carreira de Augusto, realizado a pedido do publisher de GIZ e atual diretor de atividades culturais da Fundação Memorial Allex Colontonio, a produção lida diretamente com isso que de mais espontâneo pode brotar do ser humano. Por isto a precisão nas palavras: “Vou coletar sentimentos delas. É um momento muito importante para o Memorial o ressurgimento daquele espaço histórico. Allex fala que é ‘a fênix que volta das cinzas’. Tem essa questão também da Elza, que também sempre está ressurgindo, mesmo com altos e baixos. Agora está no topo. A gente literalmente fala de memórias – seja do espaço do Memorial, seja do sentimento que vou ter daqui cinco anos quando me lembrar desse show, do que eu me lembro quando penso na minha avó que gostava de Elza Soares… é tão profundo isso que penso que ‘memórias’ traduz literalmente. Vou coletar memórias”.

As expectativas são altas e a vontade, efervescente. “Sinto que existe um sentimento muito aflorado sobre o novo momento desse espaço, que está ressurgindo e está lindo. Acho que teremos grandes memórias ali”, diz, ansioso, o profissional. “Falei para o Allex que não quero simplesmente fazer um vídeo de um show ou de um momento que está acontecendo. Quero fazer um documentário forte, deixar um legado, tenho essa vontade”, finaliza.

Augusto Custódio
augustocustodio.com@augustoccustodio