Revista Giz

01 Out 2016 - Dez 2016

#1 | Edição de Estreia

Direto do Inhotim, Bernardo Paz declara: “Por aqui tudo é novo”

Um dos mecenas mais respeitados do planeta, Bernardo Paz, a persona e a alma por trás do maior instituto de arte contemporânea a céu aberto do mundo, escreve, em primeira pessoa, sobre os 10 anos da sua inacreditável obra e sentencia: “Por aqui tudo é novo”. GIZ, que adora missões impossíveis, aproveita para mostrar, em primeira mão, fragmentos da única obra que não está no mapa do complexo, mas que você adoraria ver por lá: a casa do Bernardo

  • Por:Bernardo Paz
  • Fotos:William Gomes
  • 31 outubro 2016
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Bernardo Paz registrado em sua casa

Parto do princípio que os grandes temas da humanidade já foram escritos, traduzidos e adaptados para a linguagem popular nos últimos anos e todos esses registros estão embutidos no raciocínio coletivo. Dessa forma, creio que as pessoas já atuam dentro da razoabilidade dos pensamentos dos letrados, dos intelectuais, dos empresários, das classes menos favorecidas economicamente. Posso ser criticado pela intelectualidade, mas leio muito pouco. Exercito meu raciocínio na maior parte do tempo e, por isso, passei a ter um conhecimento generalizado, o que me permitiu ultrapassar obstáculos ao entender a formação cultural dos povos e dos vários estratos da sociedade.

Desde a minha infância observei a beleza das pinturas, das obras do Guignard, as da minha mãe e das pessoas que me cercavam à época. Busquei a beleza traduzida no ambiente em que vivia, no horizonte. E esse sentido de beleza foi se refinando à medida que estabeleci contato com pessoas especializadas de muitas áreas do conhecimento. Na verdade, acredito, as pessoas deveriam nascer aos 40 anos para não cometer os erros da juventude. Nessa idade você já absorveu a cultura necessária à busca de seus objetivos. E foi por volta dos 40 anos de idade que comecei a fazer o Inhotim.

Inhotim nasceu de uma semente apropriada por mim, pela minha convivência com Roberto Burle Marx, da minha convivência com os grandes parques do mundo, pela minha curiosidade com o que podia se tornar uma surpresa e tudo tinha que ser alinhado ao belo. E o belo pode e deve ser desenvolvido sempre na observância da contemporaneidade.

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O jardim recebeu banco de tronco de Hugo França

No processo de concretização inicial foi muito difícil, pois pessoas com raciocínio genérico têm muita dificuldade em se fazer entender por serem muito exigentes e buscarem sempre processos longitudinais e com profundidade. Uma consequência é que pessoas que acompanham essa concretização acabam realizando o trabalho sem ter ideia do que na verdade se está construindo. A minha infelicidade é que pessoas que realizam esse processo intuitivo não são as mesmas que aproveitarão do sucesso ou fracasso do objeto feito. Muitas ficam pelo caminho por não observarem que a grandeza não partiu delas e por, muitas vezes, não conseguirem valorar o que se tornou grande.

Construir Inhotim significa entrega. Normalmente as pessoas trabalham com planejamento, caixa e recursos. Algumas planejam sem recursos e sem caixa. Poucas pessoas, muito poucas, conseguem – pelo fato de terem se habituado a lidar com a intuição e com fragmentos do conhecimento da sociedade – penetrar nos meandros do labirinto que é a vida, já sabendo que do outro lado desse labirinto, que é bonito, se pode constituir uma ponte para a beleza. Essa ponte para a beleza é tão importante, tão forte, que ultrapassa os limites do financeiro e do pragmático e entra no limite do sonho e da realização.

E, então, se coloca o desafio de lidar com o tempo. É preciso observar que há de se considerar dois tipos de tempo. O primeiro é um período muito curto, o tempo da existência. O outro é o tempo da execução e da realização. Pelo fato de o período da vida ser curto é preciso ser muito rápido. Se você tem a rapidez necessária, muito provavelmente durante a sua vida poderá realizar boa parte de seus sonhos. E, muitas vezes, esses sonhos podem significar uma seta para o futuro.

Mas há uma outra questão relacionada ao tempo hoje. A sociedade recebe um volume de tecnologia e de informações que ainda não está preparada para utilizar. As pessoas que produzem as tecnologias perdem rapidamente o controle do que fizeram e os produtos passam a ser aperfeiçoados por outros segmentos da sociedade em uma velocidade absurda. E assim o mundo se tornou um mundo instantâneo. Essa instantaneidade não está sendo bem observada. Ela tem de deixar de ser “instantânea” para ser a formação do próprio pensamento. Em meio a esse processo aparecem os artistas que passam a se debruçar sobre a crítica, sobre a política e sobre os defeitos da sociedade. Isso está intrínseco na arte contemporânea, afinal, o artista tem a sensibilidade para prever, para antecipar aquilo que ainda não é visto. Basta lembrar que o formato mais violento, mais assustador da arte contemporânea foi protagonizada por Marcel Duchamp, quando tornou a latrina em um objeto de arte. Muitos questionam “Por que a latrina?” Porque a latrina desnuda todos os conceitos de beleza, de riqueza e de tradição.

“Desde a infância, passando pela minha juventude, tenho tentado buscar esse ideal. Mas ainda não alcancei. Inhotim é uma semente, é o princípio de um começo, e que o fim está longe”

O Inhotim é também uma observação clara de um idealismo nacionalista que eu fui obrigado a digerir pelos hinos que propagavam as grandes conquistas que meu pai cantava para eu dormir na minha infância e que me tornaram uma pessoa extremamente infeliz. Entre o que meu pai cantava e o que eu acreditava que poderia fazer na vida, a distância se mostrava muito grande. Desde a infância, passando pela minha juventude, tenho tentado buscar esse ideal. Mas ainda não alcancei.

Inhotim é uma semente, é o princípio de um começo, e que o fim está longe. Gostaria que todos vivessem com muita tecnologia, mas rodeados dos princípio básicos do Inhotim: sustentabilidade, segurança, beleza e cultura. E que, a partir dessa obra criada pelo viés da generalidade, as pessoas absorvessem tudo o que foi pensado para construir o Inhotim e partam dali para adiante.

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A fachada da casa de Bernardo Paz

As novas exposições temporárias que marcam as comemorações dos dez anos do Inhotim (em setembro de 2016), trazem como conceito curatorial o tema “Por aqui tudo é novo”, articulando trabalhos de jovens artistas – Sara Ramo, Pablo Accineli e Erika Verzutti – e nomes consagrados como Di Cavalcanti, Victor Grippo e Artur Barrio. A pluralidade da coleção permite releituras, novos diálogos e encontros singulares. No horizonte, ainda temos obras de grandes artistas a serem instaladas como trabalhos másters de Anish Kapoor, Ernesto Neto, Olafur Eliasson, Robert Irwin.

No entorno do Inhotim, temos um plano diretor que contempla a construção de mais quatro hotéis, centro de convenções, teatro, anfiteatro, rua de comércio e vilas. Inhotim se constitui e se consolidará, certamente, como um modelo de vida pós-contemporâneo e que poderá ser replicado em outros lugares do mundo.

Mas, afinal, como construí Inhotim? Com paixão e achando que com doze jardineiros e eu plantando junto iríamos fazer o Inhotim. O que significam agora os dez anos do Inhotim? Nada. É um tempo que já se passou. O Inhotim continuará sempre ainda por vir.

*Bernardo Paz é idealizador e presidente do Conselho de Administração do Instituto Inhotim

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O poderoso mecenas em seu living-design, que leva poltronas de Jaime Hayon e luminárias inglesas colecionáveis de design-artsy

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