Revista Giz

03 Mai 2017 - Jul 2017

#3 | Água Viva

ArteDesign

10×1: os neo-naturalistas pós-modernos que usam o meio ambiente em prol da criação

GIZ explora a temática Naturalista em suas mais diversas vertentes, partindo do design e flertando com música, literatura, paisagismo e mais

  • 6 setembro 2017

Para além dos registros de incursões pioneiras e da especificação botânica, a reprodução estética da natureza se tornou um fim próprio como cenário racional por meio do movimento que se chamou de Naturalismo. A reprodução fiel de pradarias, o retrato de grupos marginalizados e os diálogos de fala direta a prosear abertamente sobre assuntos vedados atuaram como o implante de um pensamento filosófico e científico opositor ao subjetivismo e à idealização do estilo romântico. Naturalistas colocam o indivíduo como produto da hereditariedade e do ambiente; seres que atuam sob as influências da educação e do meio em que existem, uma forma de conceber o universo que serviu de contrapiso para os pilares da ciência moderna inspirada pelas percepções evolucionistas de Charles Darwin.

Seja por meio de esculturas que se valem de restos de árvores ou por uma canção posicionada como hino da causa da demarcação de terras indígenas no Brasil, a opção por um estilo de vida mais sustentável, e o incentivo a políticas públicas menos devastadoras inspiram nossa seleção de neonaturalistas pós-modernos.

“Demarcação Já”

Cerca de 20 nomes da MPB e das artes dramáticas como Elza Soares e Ney Matogrosso somam vozes para engrossar o coro da causa da demarcação das terras indígenas no Brasil em “Demarcação Já”. Ilustrada por um videoclipe produzido pela Cinedelia, a música de autoria de Carlos Renno e melodia de Chico César, surge como parte das ações da Mobilização Nacional Indígena em um momento em que esse sistema de demarcação de terras é questionado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Fundação Nacional do Índio e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

 GIZ-FAZENDA-TROCA-1

Fazenda da Toca

Desde 2012, a Fazenda da Toca, em Itirapina, no interior de São Paulo, é um espaço de 2.300 hectares de cultivo 100% orgânico com base em preceitos de agricultura regenerativa. Além da produção de ovos igualmente certificada pelo IBD Orgânicos, o recinto divide espaço com o Instituto Toca, sem fins lucrativos, com uma escola de aplicação, que pesquisa inovações no campo da Educação para Sustentabilidade. A ideia surgiu quando, em 2008, Pedro Paulo Diniz, ex-piloto brasileiro de Fórmula 1 e herdeiro do grupo Pão de Açúcar, assumiu a administração da Fazenda, até então de agricultura convencional, e começou a busca por um projeto de sustentabilidade que caminhasse no sentido de tecnologias verdes e projetos inovadores e de impacto positivo na sociedade. Recentemente, o empresário responsável anunciou que a linha de sucos e molhos, que havia saído de produção, voltará ao varejo em setembro por uma parceria com a fabricante de alimentos Jasmine. fazendadatoca.com

GIZ-FRANS-KRAJCBERG

“Krajcberg – O Grito da Natureza”

O documentário reproduzido no programa Expedições, da TV Brasil, sob direção de Paula Saldanha e Roberto Werneck, visita o pintor, escultor e fotógrafo Frans Krajcberg (1921) para falar sobre a produção do polonês há quase 60 anos no Brasil e sobre sua luta artístico-ambiental. Sobrevivente do holocausto, as atrocidades praticadas pelo homem aproximaram Krajcberg do contato com a beleza da natureza e o influenciaram diretamente na produção de esculturas de madeira calcinada. Suas obras denunciam a ação predatória do homem na natureza. tvbrasil.ebc.com.br

GIZ-CHARLES-JENCKS

Charles Jencks

As criações de Charles Jencks não são nada usuais: o arquiteto paisagista nascido em Baltimore, nos Estados Unidos, se baseia no interesse por arte, por biologia molecular e por cosmologia para elaborar esculturas espiraladas com referências à genética, teoria do caos, ondas, cometas e sólitons. Ao longo de seus mais de 70 anos, ele, que também é designer, escultor e teórico de Arquitetura, escreveu diversos livros sobre Arquitetura Moderna que abordaram o tema até seu pós-modernismo repleto de incertezas — “A Linguagem da Arquitetura Pós-Moderna” (“The Language of Postmodern Architecture”), escrito em 1977, é ainda um best-seller. charlesjencks.com

GIZ-RAONI

Cacique Raoni

Raoni Metuktire é um líder indígena do povo Kayapó Metuktire que vive na Terra Indígena Capoto-Jarina, região do Rio Xingu no norte do Mato Grosso. O cacique foi ter o primeiro contato com o não índio aos 24 anos de idade, no ano de 1954. Aprendeu português com os irmãos Villas-Boas e conheceu o rei Leopoldo III, da Bélgica. Por sua influência e pelo aumento do interesse na questão ambiental na sociedade, o líder da comunidade se tornou porta-voz da luta pela preservação da Floresta Amazônica e embaixador dos povos indígenas. Recentemente, se reencontrou com o vocalista da banda The Police, Sting, com quem, há 30 anos, logrou reconhecimento internacional. Desde então, o índio embarcou em diversas viagens ao redor do mundo de difusão sociopolítica, o que já rendeu bons frutos em defesa de seu povo e morada. institutoraoni.com.br

GIZ-BLEU-NATURE-4

Bleu Nature

Com a soma de técnicas artesanais e industriais aos agentes naturais, a francesa Bleu Nature cria mobiliário e acessórios de iluminação baseados em troncos. A marca é nascida pelas mãos de Frank Lefebvre, que, em 1995, se encantou pelas possibilidades oferecidas pela madeira moldada pela ação do tempo e desde então revive no formato de peças que trazem um toque de contemporaneidade aos interiores residenciais. hugofranca.com.br

GIZ-JAMES-E-JEREMY

James Lovelock/Jeremy Rifkin

James Lovelock é um pesquisador e ambientalista britânico responsável pela formulação da hipótese biogeoquímica de Gaia, que sugere a Terra como um superorganismo vivo com biomas como seus órgãos vitais. Na obra “Gaia: Um novo olhar sobre a vida na Terra” (“Gaia: A New Look at Life on Earth”) – e em uma série de publicações afins que lançou depois, com teorias paradoxais e ligeiramente mutáveis –, o autor também fala sobre a saúde do planeta, que defende padecer de golpes sofridos ao longo de sua vida madura, dos quais parte é responsabilidade dos seres humanos. Jeremy Rifkin é um teórico socioeconômico, escritor, palestrante, conselheiro político e ativista estadunidense que já publicou mais de 20 best-sellers sobre o impacto das mudanças científicas e tecnológicas na economia, na força trabalhista, na sociedade e no ambiente. Sua publicação “Terceira Revolução Industrial” (“Third Industrial Revolution”), que já orientou líderes ao redor do mundo, traçou um pensamento visionário e estratégico sobre a transição econômica para uma sociedade ecológica pós-carbono ao longo da União Europeia. Ao contrário de Lovelock, é crítico da energia nuclear e defende o hidrogênio e a economia colaborativa e compartilhada como líderes de uma nova forma de vida em sociedade. foet.org

GIZ-HENRIQUE-OLIVERIA-2

Henrique Oliveira

A estrutura imersiva majoritariamente composta por madeira de tapume abandonado que lembra o interior de um tronco de árvore com galhos e raízes e tomou entre 2014 e 2015 a sala projetada por Oscar Niemeyer no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de São Paulo na mostra “Transarquitetônica” é uma das obras de Henrique Oliveira, que propõe discussão poética sobre a história da arquitetura, do racionalismo das últimas décadas aos abrigos e cavernas do passado. O pintor, escultor e artista multimídia tem enfatizado, nos últimos anos, sua prática de instalações/intervenções no espaço, mas também cria móveis em madeira sustentados sobre estruturas móveis usuais dos quais parecem brotar órgãos ou elementos orgânicos que fazem das peças, vivas. henriqueoliveira.com

GIZ-CRISTIAN-CRAVO-2

Christian Cravo

Foi por meio das artes que Christian Cravo estreitou os laços com a família paterna, que ficara no Brasil quando o menino de 7 anos se mudou para a Dinamarca, país natal da mãe. Começou a seguir o caminho do pai enquanto criança e, ainda no hemisfério norte, deu suas primeiras caminhadas fotográficas construindo a câmera escura em que passou grande parte da sua adolescência. De volta ao Brasil, aos 17, fez uma viagem pelo sertão nordestino que o despertou para a fotografia não apenas como ferramenta descobridora do mundo, mas como um compromisso profissional. Premiado nacional e internacionalmente ao longo desse vaivém entre aqui e lá – e acompanhado por exposições e bolsas de estudo –, o fotógrafo publicou, em 2016, o livro “Mariana”, em que retrata os rastros e as memórias ocultas pela tragédia humana que acometeu no ano anterior aquela região mineira inundada pelo lamaçal escoado das barragens rompidas. christiancravo.com

GIZ-TOMPKINS-5

Família Tompkins

Após a morte de Douglas Tompkins, Kristine McDivitt, viúva do magnata norte-americano fundador da marca The North Face, doou 407.625 hectares de terra ao governo chileno para a criação de uma área de conservação que dará ao país uma rede de parques nacionais do tamanho da Suíça. Conservacionista ativista, ele havia adquirido enormes extensões de terra no sul do Chile e da Argentina no início dos anos 1990 para fins de preservação, o que inclusive originou a Tompkins Conservation. O governo chileno acordou acrescentar mais 949 mil hectares de terra aos 17 parques, que se estenderão da cidade de Puerto Montt até Cabo Horn, cerca de 2 mil quilômetros ao sul, no arquipélago chileno da Terra do Fogo. tompkinsconservation.org