Restaurado de um incêndio que corroeu suas estruturas, Auditório Simón Bolívar, assinado por Niemeyer, reabre as portas em São Paulo

Com show de reabertura “Jazz & Divas — Uma Homenagem a Elza Soares”, este mês voltam à vida a histórica estrutura arquitetada por Oscar Niemeyer, a renomada tapeçaria desenhada por Tomie Ohtake e toda a vibração e troca de ideias sugerida pelo nome que o batiza

  • Fotos:Fabio Pagan
  • 8 dezembro 2017

giz-audiotorio-memorial-1

O incêndio que acometeu o Memorial da América Latina em 2013 deixou os mais de 1700 assentos do Auditório Simón Bolívar desocupados. Com a fumaça dos destroços esvaíram-se muitas das possibilidades de eventos culturais, festivos e informativos que outrora ali aconteceram em prol da valorização das raízes e vivências latino-americanas. Por meio de um processo de restauração que caminha desde a gestão de João Batista de Andrade, porém, sucedido pelo atual presidente Irineu Ferraz, este mês voltam à vida a histórica estrutura arquitetada por Oscar Niemeyer, a renomada tapeçaria desenhada por Tomie Ohtake e toda a vibração e troca de ideias sugerida pelo nome que o batiza.

Foi como um processo-resposta à comoção que contagiou a comunidade cultural de São Paulo e ao apoio do governo do estado, dos funcionários da Fundação Memorial e das empresas envolvidas na reforma, com o dificultador — há males que vêm para o bem — de se tratar de uma obra tombada pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico). A primeira fase do projeto foi iniciada em outubro de  2015 depois de  descartada a hipótese de demolição do prédio pelo IPT (Instituto de Pesquisas Técnicas).

giz-audiotorio-memorial-2

Com o tempo, o Memorial se abriu para uma nova realidade, e passou a contemplar toda forma de expressão. Por isto que, se o conceito foi ampliado, a arquitetura permaneceu intacta, com toda a sua capacidade de dar forma legível e visível ao tempo: o Auditório, totalmente restaurado, mantém as características do desenho original, com pequenas alterações como uma saída lateral e todo o aparato para conter qualquer possibilidade de incêndio.

A empresa vencedora da concorrência pública iniciou seus trabalhos com um desafio anunciado: chegar em segurança à abóbada do auditório e lá executar, com eficiência, e sobre andaimes a 20 metros do piso, o trabalho de remoção da estrutura de concreto danificada pelo fogo. Depois de retirado o concreto com hidrojateamento, foram recolocadas novas camadas de concreto projetado, recuperadas as armações internas e executado o lixamento mecanizado. Em dezembro de 2016, o Consórcio Ammtel, formado pelas empresas A.M.Marxsen e Telem S.A. iniciou as obras civis, de cenotécnica e luminotécnica. Outro desafio, observa o presidente Irineu Ferraz. “Dessa vez para reconstituir equipamentos e cenários e dar a eles todos os requisitos da moderna tecnologia sem desfigurar as características do desenho original de Oscar Niemeyer”. Todo o projeto do novo Simón Bolívar, afirma Fúlvio Azevedo, sócio-diretor da A.M.Marxsen, foi pautado pelo binômio segurança e acessibilidade: “Tudo aqui é feito com materiais que não propagam fogo. Poltronas, carpete, cortinas e a Tapeçaria de Tomie Ohtake. Há rampas, piso tátil e elevadores, saídas de emergência e, por todo o ambiente,  hidrantes, um  novo sistema de ar-condicionado, rede de prevenção de incêndio com sprinklers e detectores de fumaça. O sistema de acústica em nada fica devendo às melhores salas do mundo.” Para ele, o diferencial no projeto de reconstrução do Simón Bolívar foi o fato de a obra ter sido entregue exatamente dentro do prazo anunciado pelo governador Geraldo Alckmin.

giz-memorial-autorio-tapecaria-4

Niemeyer dizia que sua arquitetura, depois de Brasília, era definida pela estrutura. Fernando Frank Cabral, arquiteto que fez parte da equipe de projeto de Niemeyer na Argélia, vê no Auditório a síntese característica e recorrente na sua obra. “Neste projeto os problemas técnicos e funcionais de programa de espaço e estrutura são resolvidos por meio de uma solução formal que cria a beleza e, com ela, a emoção indispensável na arquitetura.” Rodrigo Queirós, professor da FAU-USP e estudioso da obra do mestre, lembra que, na verdade, o Auditório, é um desdobramento da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte, obra pontual da arquitetura modernista, assinada por Niemeyer na década de 40. No Simón Bolívar, essa característica se repete: o espaço do edifício está definido pela estrutura formada por três abóbodas de concreto que dão leveza e movimento ao edifício.

O pensamento de Niemeyer continua vivo em todos os traços do novo Auditório do Memorial. Sergio Bernardes, um dos mais respeitados arquitetos brasileiros, diz que “um compositor físico espacial como ele nunca é seguido por outro. Todo gênio termina nele mesmo. E aí está a importância para o futuro: deixar o exemplo, a marca do gênio”. Bernardes cita Rodin, que não deixou escola, assim como Leonardo Da Vinci e Michelangelo. “Oscar não é diferente, usa o dialeto da introspecção, algo que é só dele. O dialeto das pessoas sensíveis.”