O diabo veste Yamamoto: “A hora é agora e eu não consigo parar”, dispara Guilherme Torres

Em périplo por Milão durante a principal design week do planeta, GIZ travou uma série de diálogos impertinentes com o arquiteto Guilherme Torres – doa a quem doer

  • 25 julho 2017

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Em périplo por Milão durante a principal design week do planeta, GIZ travou uma série de diálogos impertinentes com Guilherme Torres – ora ácido e colérico, ora mais manso que um cordeirinho castrado e dopado com dois Frontais e três Rivotris. Com fama de difícil (e um trabalho difícil de criticar) ele continua desenhando os degraus de sua escalada rumo a um lugar da arquitetura brasileira que poucos ocuparam, para muito além dos interiores que já o projetaram como um dos grandes nomes do País. Em maio de 2017, poucos dias atrás, tornou-se o único latino-americano condecorado em dois rankings dos mais-mais do mundo: o da versão espanhola da Architectural Digest e o da inglesa Coveted, alcorões do segmento. Faz sentido. Entre seus últimos petardos estão a revitalização do prédio da centenária editora Melhoramentos, a abertura de seu primeiro escritório em Nova York, intervenções urbanas em praças públicas e a nova sede do estúdio butique que leva seu nome, um monolito que joga a técnica vernacular lá no futuro, na velocidade da nave Enterprise. “Estou mais para Darth Vader do que para um Jedi”, sentencia o cara que, além da língua ferina e do domínio da técnica, extrai o caldo detox da moda, dos japonismos, de David Bowie, de Madonna, dos videogames, da saga Star Wars e adiciona ao suco um veneno antimonotonia quase letal para erigir um dos portfólios mais originais da década. Doa a quem doer.

Se você já cruzou com o Guilherme Torres por aí, sabe o quanto ele é simpático e atencioso, com quem quer que seja, não importa a origem, o credo, o estamento social. Se chegou perto o bastante para vê-lo em ação, testemunhou o nível de excelência com que conduz seu business, seu respeito com clientes e funcionários, e pôde privar um pouco da genialidade que lhe fez notório – manifestada desde o estacionamento com contêineres empilhados no Paraná à cozinha high-tech-design por indução na maior mostra da América do Sul. Se teve a chance de trocar dois dedos de prosa com ele, provavelmente foi à gargalhada em menos de um minuto. Agora, se por acaso, já passou pela desventura de ver algo dando errado em sua órbita, das duas, uma: ou saiu correndo ao perceber o levante do tsunami, ou ficou com vontade de chamar um exorcista diante de suas síncopes apocalípticas.

Sujeito carismático, debochado, irônico, platinado por natureza, alto e, atualmente, em estado super esguio (ele vive brigando com a balança, mas geralmente vence), traz a filosofia de vida sincopada nas tattoos que tangem seus braços (num deles, postou alguns “space invaders” do vintage Atari e cunhou um trecho de uma música do Daft Punk: “Work it harder, better, faster, make it over”, algo como “trabalhe mais duro, melhor, mais rápido, vença”; no outro, riscam-se suas iniciais, o ano em que nasceu em algarismos romanos, escritos em braile e no kanji japonês). Com inteligência faraônica, é moderno de dentro para fora, sem forçar a barra, até na hora de conservar o sotaque caipira que lhe faz arrastar os erres característicos da Cianorte onde nasceu, noroeste paranaense, uma lição aprendida com a amiga Vera Holtz, estrela do primeiro escalão da dramaturgia nacional e performer vanguardex nas horas vagas, do tipo que faz selfie mordendo língua crua de boi com melancias e picles na cabeça. Assim como os vestidos-artsy de Vera, seus looks desconstruídos (quase sempre assinados pelo fashionista japonês Yohji Yamamoto) são um pouco a bandeira de como ele enxerga a vida lá na frente.

Escrevi sobre sua obra tantas vezes que corria o risco de ligar o piloto automático neste textão. Cheguei a confiar a tarefa a outro jornalista e revoguei, não por territorialismo (sou o sujeito mais desapegado que conheço), mas pelo dever quase cívico de radiografar com proximidade privilegiada o next level do starchitect que também é um dos meus melhores amigos, e cuja envergadura, legitimidade e evolução do trabalho sou testemunha ocular (e biógrafo). Não estava lá desde o começo: Torres já era um arquiteto renomado quando o conheci, um punhado de anos atrás. Mas seria a primeira vez que seu trabalho estamparia uma revista nacional classe A, a Casa Vogue, e, à época como editor-chefe, decidi eu mesmo entrevistá-lo. Criamos uma conexão, mas só nos conheceríamos de fato em Milão, meses mais tarde. Corta para um prosaico flashback: estava eu, “muambeiro” de primeira viagem, na tentadora sessão de design da La Rinascente, lojão-fetiche humildemente prostrado aos pés da catedral Duomo, comprando um set de luminárias, digamos, extravagantes, de Tom Dixon, e não fazia ideia de quais exatamente escolher, de como combiná-las e de como trazê-las, dado o tamanho da encrenca (e meus característicos arroubos sagitarianos). O ano era 2006 e os quiproquós aduaneiros nunca estiveram tão implacáveis como naquele outono. Prático, ele harmonizou o set, racionalizou as embalagens, me instruiu no despacho e até cuidou do refund numa época em que nem valia a pena pegar aquela fila imensa no aeroporto para resgatar alguns parcos euros. Ficamos próximos, passamos a frequentar a casa um do outro em confrarias gourmet regadas a risadarias (como eu, ele adora cozinhar, e manda tão bem no negócio que seus mise-en-places virginianos rendem fotos melhores do que as que carimbam muitos best-sellers culinários).

Ao passo em que seus projetos residenciais prensam as capas das revistas mais importantes do mundo – da França aos EUA, da China à Coreia, duas delas acabam de elegê-lo como único latino-americano no top 100 of the world (a versão espanhola da Architectural Digest, manual de estilo predileto entre os moderninhos, e a inglesa Coveted, nova referência em design, com distribuição que alcança até Singapura). Nos últimos anos também surpreendeu a gringa com tiros-artsy como a instalação Mangue Groove, que sacudiu a Art Basel em Miami em 2013, parceria com a Swarovski. Foi ali que começou a esboçar uma vontade que se materializa agora: a primeira filial de seu escritório em Nova York, joint-venture com arquitetos brasileiros e americanos novinhos e cheios de gás no Upper East Side. Seu festejado coté designer, que arrancou elogios até da quase centenária papisa americana da moda Iris Apfel (que eu conheci na festa de aniversário de 40 anos de monsieur Torres – sim, ela não apenas pousou por lá para espanto geral da nação como também caiu de amores por um croquete de palmito que quase lhe fez engasgar: “Os brasileiros comem até as palmeiras do jardim?”), também ganha corpo: ele é diretor artístico da NOS Furniture, selo tocado pela chiquérrima empresária curitibana Larissa Vanzo, que se anuncia como “a mais original das marcas brasileiras”. No catálogo em que figuram criações exclusivas de bambas da nova geração, como Rodrigo Almeida, Zanini e Guilherme Wentz, claro, também pipocam filhotes de Torres, como a mesa Jet, hit prestes a completar dez anos (e que está na casa de estrelas pop como a rapper inglesa M.I.A.) e o sofá Otto, que a Jimmy Choo usou na campanha estrelada por ninguém menos que Nicole Kidman.

Entre os xodós da vez, venceu a concorrência para o retrofit + projeto museográfico da sede da antológica Companhia Melhoramentos, um dos prédios mais importantes – embora menos comentados – da história da Revolução Industrial Paulistana e do desenvolvimento da urbe (onde funcionou a “casa da moeda” lá nos anos 1930); e o estúdio-butique da Gabriel Monteiro da Silva, que já nasceu com vocação de cartão-postal vazadinho de frente para uma praça que ele há de revitalizar – se juntássemos todos os arquitetos que param ali na frente para fazer selfie ou estudar a intrigante diagramação dos mais de 25.000 tijolinhos à vista que Torres empilhou em cadência “dois pra lá, dois pra cá”, daria para colonizar Júpiter, Urano e Plutão. Ele acha graça e até explica a composição aos mais curiosos.

Por isso não se engane. O bom samaritano que insiste em vestir a carapuça chifruda da Malévola chegou onde chegou cobrando um padrão de qualidade rigoroso de seu staff e de seus fornecedores, mas principalmente de si mesmo, o que lhe custa uma entrega visceral e muitos radicais livres queimados tais e quais calorias na esteira. Passa noites em claro em busca da ideia perfeita e raramente faz elogios a si próprio ou a algo que não tenha sido produzido por um de seus mestres ou neo-darlings – um balaio tão sui generis que compreende Le Corbusier e Rem Koolhaas, passando por Madonna e Damien Hirst. Perde o amigo, mas não perde a piada. Entre os chistes, espalhou por aí que eu só me alimento de coxinha e leite condensado (duas coisas que eu sempre a-b-o-m-i-n-e-i). Vira e mexe encontro alguém (geralmente um poderoso do circuito, como o Paulo Bacchi, CEO da Artefacto) que me repreende: “Você precisa parar de tomar leite condensado e comer coxinha”. Entro na onda, mas já vi gente chorando com seus bullyings. Um colega em comum, ao lhe apresentar seu apartamento, pediu uma dica de como otimizar o décor. Sem hesitar, Torres disparou: “Me traz o fósforo e a gasolina já”. O camarada não levou na brincadeira.

Decidimos nos deslocar de nossa zona de conforto para fazer uma entrevista menos cartesiana, sob medida para a nova fase de ambos. Hoje, sou dono da minha própria revista (e só Deus e o Guilherme sabem o quanto isso me custa); ele, um dos arquitetos mais aquilatados da vez.

E, como ambos estaríamos em Milão, ajambramos a conversa por lá, aproveitando que o mundo inteiro estaria exibindo o seu melhor – e o seu pior. Na combo das impressões guilherminianas, entram cutucadas na Design Week mais importante do planeta, regressões à infância e reflexões sobre o mundo, críticas às cidades e balanços de si próprio em cinco dias anuviados com cara de Juízo Final. Quem viver, lerá!

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Dia primeiro. O Salão do Móvel de Milão
Após dois dias de feira vasculhando os mais de 20 pavilhões, o que se vê é mais do mesmo. Estandes repetindo a cenografia, marcas reeditando os mesmos móveis em novas cores, homenagens aos grandes mestres do passado. Poucos lançamentos, nenhum protótipo inovador, nenhuma matéria-prima novidadeira, nenhuma tecnologia revolucionária. Reflexos de uma indústria que fechou as torneiras. Meio cabisbaixos na volta da maratona, com a sola dos pés clamando piedade, encontramos Guilherme Torres com uma taça de Veuve Clicquot na mão, fazendo algazarra (ele sempre está plugado no 220V). E aí, Gui, gostou? “Nunca vi nada tão ruim! Hahahaha.” Ele desenvolve enquanto caminhamos: “Esta edição da Feira de Milão não apresenta mais os sintomas da ‘crise’, tratada como um fator externo. O mercado de luxo, em crise há mais de uma década com a quebra americana e, na sequência, a desaceleração dos países do BRICs, o bloco emergente que seria a salvação da economia, vemos a verdadeira crise instaurada. Ela se apresenta na forma de coleções revisitadas pela milionésima vez, um falso retorno ao barroco, ao romantismo. Isso se deve ao esgotamento criativo dos profissionais, à falta de investimento no setor, e revela uma dura verdade: o mundo nos embruteceu e perdemos nossa capacidade de nos emocionar. Grandes marcas chegam ao abuso de marketing ao promover ‘objetos nômades’ de 20 mil euros! Pergunte a um refugiado como é a vida dele… Vivemos em uma época de incertezas e, como disse Fernando Pessoa, ‘só a arte nos salva’. Hora de prestar atenção na contenção e austeridade de estúdios de criação como Nendo. Temos que aprender a viver com menos, sermos mais humanos e voltarmos a prestar atenção no mundo que nos cerca, que vai muito além dos smartphones e da falta de conteúdo real.”

Em nossa companhia, também estavam seu neo-braço direito Enrico Beer Boimond, jovem arquiteto italiano com cara e identidade de príncipe, formado em Oxford,
aspirante a cineasta, do tipo menino prodígio (ele ganhou menção honrosa na Expo Milão 2015), herdeiro sangue azul da linhagem Matarazzo, que eu apresentei a Guilherme e que ele tratou de angariar para o Studio imediatamente (Boimond, que dois anos atrás me foi introduzido pelo Carlo Calabro, da Acierno, foi o responsável por alguns dos teasers de lançamento desta revista); bem como o diretor da GIZ e meu parceiro na saúde e na doença, o não menos pródigo André Rodrigues.

No metrô, Guilherme é interpelado por duas jovens arquitetas piauienses, excitadissimas. “Somos suas fãs. Podemos tirar uma foto?”. Além da selfie, ele se interessa por elas, pergunta sobre seus trabalhos, faz um tricô ligeiro. A cena se repetiria em outras dez abordagens de profissionais brasucas de tudo quanto é canto, antes que pudéssemos alcançar as catracas, sem que ele virasse os olhos em sinal de tédio uma vez que fosse. Já no vagão, mais apinhado de etnias do que uma convenção da ONU, enquanto outro grupo de patriotas reconhece – e aponta – Guilherme, tiramos onda da sua celebridade. “Sempre sonhei com isso na infância. Fui aquela criança que não era convidada para nada. Planejei, escrevi meu próprio roteiro”, relembra. “Isso explica sua devoção pela Madonna”, diagnostica o André. “Talvez. Nunca me ative a um trabalho só. Nunca gostei da ideia de ficar dentro de uma caixa. E as pessoas me colocaram numa caixa quando cheguei em São Paulo. No Paraná eu podia projetar de tudo, mas em SP todo mundo costuma rotular tudo. Ou você é arquiteto de prédios, ou de casas, ou de ambientes coloridos… Não me encaixo nessas rotulações. Por aí olho para a Madonna, que nunca se prendeu a uma única mídia e que foi uma das primeiras artistas na história a perceber a música como algo visual. Meu trabalho nunca termina onde a maioria das pessoas acha que deveria terminar. Fazer um móvel, por exemplo, é uma continuidade do meu processo criativo como arquiteto”, diz.

De onde será que vem sua fama de difícil?
Ou você é a caça, ou é o caçador. Essa fama é a bandeira de quem eu sou: alguém que defende veementemente as suas ideias, o seu trabalho, o seu ponto de vista. Tenho pânico de coisa errada e estamos vivendo um turbilhão de crises, como já falei lá no Salone, muito além da econômica. Aliás, muito pior do que a crise criativa (que é pior do que a econômica) é a crise ética. Você não tem mais em quem confiar e contra isso sempre vou me levantar mesmo. Não tenho medo de me posicionar!

O que o faz perder a cabeça?
Fornecedor que vende uma coisa e entrega outra, com qualidade inferior, é quase uma rotina no Brasil. Serviço malfeito. Alguns clientes espertinhos e lojas que querem lhe passar para trás. Tenho visto muita coisa desagradável por aí…

Você já levou muitos calotes?
Pouquíssimos, mas talvez exatamente pela minha postura. Não tenho nenhuma inibição em resolver problemas: meu departamento jurídico é do tamanho do meu escritório.

A marca que você dirige, NOS Furniture, é apresentada como a mais original entre as brasileiras. Mas você próprio é vítima da cópia (já vi muitos sofás Otto “dublados” por aí). Acredita que a cópia é o maior elogio? Como lida com isso?
Claro que não acho um elogio, acho um crime! E lido “botando todo mundo no pau”, processando pra valer. Volto na questão da ética, do respeito e da inspiração. Uma coisa é o inconsciente coletivo, quando as pessoas pensam ao mesmo tempo, olham para as mesmas referências, seja por conta de reflexos políticos, sociais, de novas tecnologias, simultaneamente. Hoje em dia é uma banalização grotesca. Ninguém sabe de onde veio o que, as pessoas acham que podem vampirizar tudo do Instagram e do Pinterest! Olhe para a mobília dos anos 50, por exemplo. Quem fez a primeira cadeira com braços tipo bumerangue? Tem horas que você vê uma da Lina Bo Bardi, outras, do Zanine, outras, de algum designer dinamarquês. Naquele contexto, ninguém copiou ninguém, cada um fez a sua leitura de um movimento – e é o que eu faço muitas vezes. Neste caso, a disputa pelo “quem fez primeiro” é uma bobagem. Já a cópia é ofensiva, porque existe um custo altíssimo de estudos, prototipagem, um investimento absurdo em qualidade e outro ainda maior em marketing: e o consumidor acaba enganado. Venho de outra educação, de outro código social. Numa cidade pequena, onde todos se conhecem, ficar devendo o restaurante é dever pra todo mundo. Em SP, te atropelam com um caminhão de dia e à noite te ligam pedindo favor, como se nada tivesse acontecido.

Dia Segundo. Fondazione Prada.
A fundação de arte sob comando da festejada estilista Miuccia Prada e do seu marido, o empresário/visionário/bilionário Patrizio Bertelli, desde 1995, é inteiramente dedicada às artes e culturas contemporâneas. O complexo tem assinatura do cardeal neerlandês Rem Koolhaas e está instalado em uma antiga destilaria de gin, na região industrial do Largo Isarco, em Milão. “A ideia é expandir o repertório de tipologias arquiteturais nas quais a arte pode ser exibida”, explica Koolhaas sobre a Fondazione. Durante a semana de design, a instalação “Slight Agitation”, de Pamela Rosenkranz, e a expo “Extinct in the Wild”, agradaram, mas não impressionaram. André e eu já havíamos estado ali duas vezes antes, coincidentemente com o próprio Guilherme, em 2015 e 2016. Voltávamos para conferir as novas curadorias e para apresentar o espetacular prédio ao menino Enrico, que encontrou, pelo menos, uns 10 amigos pelo caminho durante nossa saga milanesa – boa parte deles a bordo de “roncosas” Ferraris, para ser um pouco deslumbrado.

Estávamos em um dos lugares prediletos de Guilherme. “Minha vida mudou completamente quando li o livro S, M, L, XL. Meu trabalho de graduação na faculdade foi todo sobre a obra de Koolhaas. Queria entrar na cabeça dele. Toda vez que venho aqui me surpreendo com um detalhe novo que descubro, seja de raciocínio espacial, seja de acabamento”, diz. Seguimos conversando, displicentemente, com o gravador do iPhone ligado.

E essa sua busca pela perfeição, seria uma espécie de medo do fracasso?
Sempre tive um desejo inaugural por fazer do jeito certo. Minha educação foi muito rígida. Meu pai, advogado curiosíssimo sobre tudo, adorava aqueles métodos típicos da contracultura americana dos anos 70, tipo “faça desse ou daquele jeito para ter esse ou aquele resultado”. Nasci com todo o potencial para ele fazer de mim um laboratório de seus experimentos didáticos. E deu certo. Aprendi a falar cedo, aos oito meses. E a escrever com dois anos. Logo, nenhuma criança gostava de mim e nem eu gostava delas. Criei uma bolha de invisibilidade e me refugiei no mundo da fantasia. Sempre me senti no lugar errado, deslocado, não tinha nenhuma habilidade para esportes. Quando chutavam a bola pra mim, ela acertava a minha cabeça e eu caía feito um fantoche (risos). Através da estética fui me libertando. O auto-exílio me fazia crescer nas atividades mais introspectivas, como desenhar. Nunca tive talentos natos, mas com a chegada do videogame descobri um dom – fui campeão mundial de Atari. Jogando, vi que podia ser bom em alguma coisa e fiz daquilo minha primeira interação social. Mas quase tudo o que faço demorei vinte anos para aprender, pela perseverança. Sou aquela pessoa que insiste, mesmo quando dá errado, que não desiste. Talvez isso seja o que as pessoas chamam de busca pela perfeição.

Você se descobriu arquiteto muito cedo, antes de saber o que isso significava…
Sempre fui entediado. Aos 12 anos pedi dinheiro ao meu pai e ele disse que eu precisava trabalhar. Havia um escritório perto da minha casa, bati lá pedindo emprego. O engenheiro achou graça, telefonou para o meu pai, que autorizou, achando que aquilo não duraria nem uma tarde. Naquela época existia uma demanda operacional e eu adorava: limpava canetas nanquim, cortava e esticava papel vegetal, ajudava nas maquetes… Até que um dia um projetista precisava de uma perspectiva às pressas e eu, que devorava toda sorte de revistas do segmento, fiz com os pés nas costas. Seis meses depois briguei com o dono, que não queria me dar um aumento e me achava a criança mais petulante do mundo (e eu era, de fato). Aos 15 anos, fiquei praticamente sócio de outro engenheiro naquele que seria o esboço do meu primeiro escritório.

Quando percebeu que Cianorte era pequena demais para você?
No dia que abri os olhos e vi que não estava em Nova York (risos). Sempre fui um tubarão dentro do aquário. Daí me mudei de mala e cuia para Curitiba, um choque de realidade – no primeiro dia dei de cara com um corpo na esquina, nunca tinha visto um cadáver antes. Mas fui criado para ser duro, meu pai sempre foi muito racional. Hoje enxergo que ele percebeu a minha sensibilidade logo cedo, ficou com medo que eu fosse alguém frágil e trabalhou bastante isso em mim…

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Você se considera duro?
Tive que encarar tudo quanto é tarefa hard na infância. Todo fim de semana sabia que ia ter alguma surpresinha do meu pai, fosse cavar um buraco de três metros no jardim, fosse abater um porquinho indefeso, daqueles bem fofos.

Você atribui a isso o seu instinto de sobrevivência, já que saiu cedo de casa? E como foi parar em Londrina?
Nunca mais pedi dinheiro ao meu pai. Na época da faculdade, ou trabalhava ou estudava. Cursava um ano, ficava devendo, trancava, trabalhava, pagava e voltava. Me virava do jeito que dava. Fui o primeiro sacoleiro de que tenho notícia. Li uma reportagem sobre uma expo do Frank Lloyd Wright em NY. Perguntei a uma agência de viagem o que eu precisava fazer para ganhar passagem e hospedagem. “Se você vender 20 pacotes, te dou um”, me responderam. Em menos de um mês vendi 40 e peguei o troco em dinheiro. Embarquei como líder da excursão, com o povo jurando que eu conhecia a cidade como a palma da minha mão. Tinha visto tantos filmes que sabia dobrar cada esquina. E, embora não falasse inglês oficialmente, Michael Jackson, Madonna e George Michael tinham sido excelentes professores. Era capaz de travar diálogos inteiros com letras de músicas. Descobri os outlets, passei a trabalhar sob encomenda e trazia tudo o que a mulherada gostava. Organizei bazares que se tornaram lendários em Londrina… Até o dia em que sacoleira virou profissão da moda e eu perdi a galinha dos ovos de ouro.

E o que fez para ganhar dinheiro?
Não gostava da minha faculdade. Achei que fosse encontrar professores incríveis e gente apaixonada por arquitetura, como eu. Havia dezenas de desinteressados que nem sequer prestavam atenção no pouco que era ensinado e que tampouco pesquisavam por fora. Como eu era obcecado pelo tema – e consequentemente, me destacava –, comecei a ser procurado por eles, que tinham preguiça de fazer seus trabalhos acadêmicos. E claro que cobrava (e bem) por isso. Uma vez desenhei 43 creches com o mesmo terreno, o mesmo programa, sempre com traços e memoriais descritivos diferentes (risos). Na minha cabeça, aquilo não era antiético, afinal, estava vendendo o meu trabalho, sem copiar nada de ninguém. Era um comércio da minha própria intelectualidade, em sua forma mais diversificada. Antiético era quem comprava (risos).

Entre o menino excluído na infância e o GT que ganhou tantos prêmios, o que o catapultou de um lugar para o outro?
Segui o roteiro pragmático que desenhei na minha cabeça, já que queria ser rico e famoso (risos). Mas continuo quebrando a cara o tempo inteiro. Acho que o meu diferencial é que a maioria das pessoas não sabe lidar direito com derrotas. Eu sei. Coleciono frustrações porque sempre tive que conviver com elas. E tirei bom proveito de cada uma também – afinal, ostra feliz não faz pérola, né?

Qual é a pior das suas frustrações?
Não ter projetado a Fondazione Prada (risos). Não me lembro de nenhuma. Talvez eu apague para poder seguir em frente. Tenho pouquíssimos períodos de auto-piedade e eles são bem curtos. Nas florestas indianas, se um tigre mostra a pata quebrada, os outros 0 devoram. Sempre me preocupei com isso [ironicamente, Guilherme esquece que ostenta um grande curativo no polegar esquerdo, reconstruído cirurgicamente após prender a mão duas semanas antes na porta do carro blindado do paisagista Alex Hanazaki, outro de seus melhores amigos, o que quase lhe custou o dedo].

Você sofreu um acidente de carro que o deixou acamado durante um ano. O que fez durante o “exílio”?
Sim, estava dirigindo muito alcoolizado. Bati no meio fio, capotei e lesionei várias vértebras e ossos. Fiquei completamente imobilizado, precisava de ajuda até para ir ao banheiro. Assistia televisão o dia inteirinho. Na época do Note & Anote, da Rede Record, o programa da Ana Maria Braga tinha 13 horas de duração e metade era merchandising (risos). Sei tudo e mais um pouco sobre a iogurteira Top Therm, o Cogumelo do Sol, a TekPix… Era um tédio danado, mas me ajudou a aprender a cozinhar (risos).

E como fez para retomar a vida?
Um grande amigo estava decolando como cabeleireiro e me chamou para decorar a sala dele. Uma cliente gostou e me contratou e, pouco depois, estava projetando para toda a sociedade paranaense.

E como surgiu o lado designer? Nessa época você desenhava para a Micasa…
Em cidade pequena você é obrigado a inventar. Se o cliente queria um determinado sofá, mandava fazer. Quando comecei a comprar em São Paulo, tinha um budget de R$ 100 mil para fazer uma sala de jantar. E só nas cadeiras a gente gastava R$ 95 mil. Não tinha mesa, não tinha luz, não tinha nada – era preciso criar esse tanto de coisas que faltavam. Como desde muito cedo tive formação de marcenaria, desenhava peças para dar suporte ao produto de design. Um grande amigo, o Beto Consorte, cuidava da identidade da Micasa. Um dia, criei uma mesa [Jet], meti num caminhão e mandei entregar na loja. Era de um vermelho gritante. Quando o móvel chegou, ele ficou inseguro: “Achei legal, bem bacana, mas quem iria comprar uma mesa vermelha? Ainda mais desse tamanho? Vou fazer uma foto produzida e depois a gente te devolve”. Venderam no primeiro dia.

Quem comprou?
A Adriana Varejão, que estava casada com o Bernardo Paz. Essa foi a mesa número um. A número zero quem comprou foi a Vera Holtz.

Essa mesa é a Jet, que agora completa 10 anos como hit nacional. Você acha que a casa brasileira tem uma identidade?
Infelizmente, caminhamos para o grande desejo do brasileiro que é morar na casa de um estrangeiro. A cozinha americana virou espaço gourmet, a sala de TV virou home theater e por aí vai. Estamos longe de uma evolução personalizada ou até mesmo de um estilo de morar mais europeu, que é muito mais sofisticado – e simples. A casa para o europeu é a grande recompensa, um prazer hedonista e secreto. Para o brasileiro, é o modelo padrão dos EUA. Pessoas ricas têm residências muito maiores do que precisam, em ambientes absolutamente sem vida. Sempre busquei fazer algo diferente disso tudo, mesmo num projeto nababesco de 20 mil metros quadrados, olhando para o Brasil e para o mundo.

Dia terceiro. Triennale di Milano
Naquela manhã, Milão estava tomada por manifestações populares. Enquanto rala mais que parmesão na mão da nona para se recuperar de uma fase penosa – justificada, em partes, pela crise migratória – e se esforça para alavancar o crescimento industrial e baixar um pouco a taxa de desemprego, a Itália ainda tem uma conta vertiginosa a quitar. Na folha de pagamentos salta aos olhos uma dívida que supera em 130% o PIB e um déficit estrutural público de 2,4%. O número está abaixo do teto de 3% permitido pelo Pacto de Estabilidade da União Europeia, mas os Estados-membros acreditam que, se não reduzir a porcentagem, a nação-tarantela não vai conseguir aliviar consistentemente sua despesa, a vice-campeã do bloco (eles só perdem para os gregos, que vivem sua pior tragédia – não teatral, mas econômica). Não à toa, na quarta-feira, dia 5 [de abril de 2017], os sindicatos que representam trabalhadores da ATM, empresa de transporte público de Milão, convocaram uma greve geral que parou, durante toda a manhã, ônibus, trens e metrôs. Pegamos um táxi – über, como tudo em Milão nessa época, é algo raro e caro – para encontrar Guilherme em seu hotel, e seguimos para o Museu de Design da Triennale, localizado no Palazzo dell’Arte, que sempre reserva boas mostras e é um dos nossos programas prediletos. Não desta vez. A expo “Giro Giro Tondo”, que mostra como o desenho industrial aborda o universo infantil, incluindo jogos e imagens, lugares onde deram seus primeiros passos e os objetos que usaram para descobrir o mundo, não parecia madura o suficiente. Subimos para afogar as mágoas em dois baldes de Aperol Spritz, lá no rooftop do museu. Play no gravador.

Olha a gente aqui de novo no terraço da Triennale. Você já imprimiu muitas vezes uma carinha mais museográfica em seus projetos. Explica essa vibe?
Chega uma hora em que você fica de saco cheio das coisas. O trabalho em interiores dá muita projeção. Mas, praticamente, a gente não tem nenhum veículo de arquitetura. Quase todos são voltados para decoração. Explorar mais esse lado é uma maneira de você se aproximar do público que aprecia casca e conteúdo. O importante é você fazer coisas que toquem as pessoas. Ser atemporal é o grande desafio. Olho para o trabalho do estúdio japonês SANAA, por exemplo, e sinto que aquilo só poderia ser projetado com os avanços tecnológicos da arquitetura, sem estigmas de período. Toda obra arquitetônica é, por definição, um abrigo. Não acho que um museu deva ser mais importante do que o acervo que expõe. Moda, decoração e arquitetura não são arte, por exemplo.

A percepção é proporcional ao esforço?
A primeira coisa que eu aprendi em São Paulo foi isso. Você trabalha com o budget maior, mas todo mundo é extremamente conservador. Você já assistiu ao filme O Discreto Charme da Burguesia? (França, 1972, Luis Buñuel). É um filme que fala sobre como os burgueses são entediados. O paulistano tem muito disso. Ele é entediado por natureza. Tudo o que você mostra ele já viu melhor, já comeu no melhor, já sentou no melhor. É difícil agradar, mas não impossível…

Característica do paulistano ou do rico?
É uma coisa que encontrei em São Paulo. Todo mundo fala que é uma cidade cinza. Não acho. SP é bege. No interior eu podia fazer muito experimentalismo. Propunha e as pessoas embarcavam. Mesmo considerando que trabalho com um nível de paulistano culto, bem informado, com referência, totalmente diferente da maioria dos meus colegas – não trabalho para novo-rico. Mesmo assim você vê que ainda é necessário matar um leão por dia, conquistar, ganhar as pessoas.

A crise bateu à sua porta?
Palavra tem poder. Se você começar a falar essa palavra, ela acontece, por isso evito. Mas sim, ela bateu à porta de todo mundo, e eu soube ajustar minhas velas. Sempre faço isso e você também precisa aprender: ajuste, mude, adapte-se.

O que você mudou?
Novos processos, novas alianças. Hoje tenho uma condição que, se o cliente quiser, posso entregar uma obra turn key para ele. Literalmente: dou a chave na mão. Posso, inclusive, construir – temos um departamento de engenharia dentro do nosso escritório. Não adianta fazer um projeto e vir outra empresa de comunicação visual para desenvolvê-lo, por exemplo. Isso acaba com o conceito. Como gosto de atuar em todas essas áreas, a gente decidiu montar um pool multidisciplinar de criativos. Com poucas pessoas sinestésicas no escritório e mais alianças externas. Essa história de fazer o livro dentro do escritório, é para ser autoral mesmo, visceral (Guilherme está fazendo o seu primeiro livro, contratou o diretor de arte Bernnardo Bennedito, sob coordenação editorial minha e do André). A forma como estamos produzindo os nossos filmes, dirigidos pelo Enrico, idem. É a maneira que a gente tem para se comunicar com as pessoas, com um outro alcance. Podemos ser um escritório de identidade visual, de branding, de design, de arquitetura. Chega uma hora que tudo vira. Por outro lado, nós também temos o projeto de continuar exatamente daquele tamanho. Ele foi aumentado justamente para nunca mais ser aumentado.

Qual é o seu tamanho hoje?
Temos 12 posições de trabalho, fora as administrativas. Se aumentar, acabo tirando a mão do trabalho. Não é o DNA do escritório. O plano está se alinhavando ao escopo de todas as minhas empresas fundidas numa Fundação. Isso, para mim, é a parte mais importante agora e onde vou focar 100%. Se eu deixar de existir amanhã, tudo vai continuar. Sem nenhuma disputa, porque tudo está consolidado. Enquanto eu estiver em plenas funções, o que planejo continuar ainda por algumas décadas, quero deixar encaminhado para que o negócio continue sozinho.

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Já que se interessa em deixar um legado, qual é o propósito da arquitetura?
Há várias maneiras de ver isso. A gente está tentando adotar uma praça em frente ao escritório. É impressionante. No Brasil, você tenta dar um presente para a cidade, tipo, “vamos fazer uma proposta de revitalização de um lugar morto, escuro, tenebroso” e você precisa passar por várias autarquias, implorar, se humilhar. O espaço urbano, em São Paulo, é a coisa mais mutilante e estranha que se tem. O urbanismo é completamente largado e isso reflete a autoestima da população e suas relações sociais. Eu acredito em vetor. A obra do escritório, por exemplo, tornou-se um vetor. Se estamos sentados à porta, as pessoas param e vêm conversar. Então, na hora que a gente olhou para a praça da frente, pensamos “puta, temos que fazer algo aqui também”. Você começa a ver como pode transformar a cidade. São Paulo foi desenhada com um estreitamento muito grande. Todas as metrópoles que a gente conhece e admira são cidades reconstruídas. Vivemos em um dos poucos lugares que se auto-gerou em curtíssimo período de tempo. São Paulo teve um crescimento monstruoso dos anos 1930 aos 1950 – foi a capital que mais se expandiu no mundo. Ela não se adapta com transporte público, com habitação, com urbanização, com nada. Temos 550 modelos de calçada. E calçada com degrau, coisa que eu só vi aqui. Todo mundo mete a boca no Rio, mas lá as calçadas são uniformes. Não consigo entender São Paulo. Na nossa rua, por exemplo, não tem nem bueiro (risos).

Você tem vontade de fazer um projeto urbanístico para a cidade que vá além da praça em frente ao seu escritório?
Debatemos sobre isso o tempo inteiro. E a chegada do Enrico ao escritório tem tudo a ver com isso. Ele é absolutamente questionador ao ponto de me fazer perceber em duas semanas algo que teria feito eu ir parar no divã daqui a dez anos. Para aonde eu estava indo era um caminho que não me interessava – retornei ao ponto de origem. E, isso para mim, foi uma coisa muito importante. Acredito na juventude em si (não na perseguição da juventude como ideal estético).

Como equaciona essa politização com seu apreço pelo luxo, que é uma coisa extremamente supérflua?
O maior luxo do mundo é o supérfluo, não conseguimos viver sem ele. Se fosse assim, todo mundo iria comprar cadeira no supermercado. Qual a função de uma cadeira? Sentar, o que é simples e barato. Quando você começa a criar discursos de desenho, a colocar informações, você assume o luxo – e arquitetura é uma forma de comunicação, assim como o design gráfico. Somos seres extremamente visuais, taí um dos nossos sentidos usados com maior prazer. Vivemos em uma sociedade que está levando o visual ao extremo, como é no Instagram. Adoro uma vida boa. Sou bon vivant de primeira. Não tenho problema nenhum com isso, ao contrário. Não tenho esse complexo de autopunição que as pessoas têm, de fazer uma coisa e se repudiar depois. Tomo vinho na hora do almoço todos os dias. Senão, para que eu tenho vida?

Você é o mais jovem arquiteto da sua geração. Não mais no sentido cronológico, mas continua sendo o mais fresh…
Talvez, porque exista um buraco, um gap no mercado. Isso é da minha natureza. Eu sou muito ligado. Para mim, o que importa é o dia de hoje. Se eu viver o agora, entendo o amanhã. No ontem, eu não tenho o menor interesse, além do legado histórico que me influencia. Já foi. Já passou. Essa ligação com pessoas mais jovens é muito importante. E, também existe a questão sucessória. Toda relação é feita entre mestres e discípulos. Foi assim que eu aprendi marcenaria (com um grande marceneiro). As pessoas têm acreditado muito em autogeração. Para mim, essa turminha de 20 anos, a tal “geração y”, acha que são planárias. Buscam a originalidade sem fazer nenhuma pesquisa, sem ter o menor respeito pelo trabalho.

Quem é bom no Brasil?
Olho para o Arthur Casas, para o Paulo Jacobsen, para o Marcio Kogan, para o Paulo Mendes da Rocha – que eu amo de paixão. Ninguém tem admiração por colega vivo. Sempre escolhem o colega morto. Eu gosto das pessoas vivas. Mas o Artigas foi uma das minhas principais influências, até pelo lugar de onde vim. Londrina foi a grande usina do Artigas. Quando ia ver um filme, até a sala do cinema tinha sido projetada por ele.

Dia quarto. Nendo. Patricia Urquiola. Louis Vuitton.
A partir de um dos pilares do minimalismo nipônico – a lida com o vazio/preenchido, à revelia do minimalismo ocidental, ainda ocupado com a limpeza visual que resulta do mote “menos é mais” –, o estúdio Nendo apresentou durante a semana do design em Milão a mostra “Nendo: Invisible Outlines”. Com a palavra, o criador: “Estamos acostumados a perceber a existência e posição dos objetos por meio de seus contornos, que também nos ajudam a distinguir entre dentro e fora”, conta Oki Sato. “Isso é colocado em questionamento quando transfiguro os contornos, de modo que os visitantes são forçados a ‘desenhar’ os objetos mentalmente, a partir somente das linhas que definem suas formas”, conclui com a genialidade e a simplicidade que lhe são tão peculiares. Nendo foi o grande ponto de exclamação da temporada milanesa. André e eu, que já entrevistamos Sato algumas vezes, somos fãs declarados. Guilherme e Enrico, também. A fila do showroom da Jil Sander, localizado na efervescente via Luca Beltrami, onde descortina-se o minimalismo que é trademark da estilista alemã (ela tem o apelido de “Rainha do Menos”), dava volta no quarteirão, gerando uma espera de cerca de uma hora e meia – driblados pelos privilégios da imprensa, que tinha uma entrada à parte. Enrico analisou milimetricamente cada aspecto técnico da instalação, entre um shooting e outro. André chorou com a expo. Guilherme quase – e comprou um tênis da coleção (sim, a grife mandou Oki Sato customizar alguns suvenires).

Até que enfim, algo bom, hein Gui?
Realmente, o japa lacra. Japa, não: canadense.

Ele é nipo-canadense, na verdade.
Sim, ele lacra em qualquer lugar (risos). É interessante porque é um desenho elementar que vai na contramão de tudo. A gente sempre vê tecnologia, coisas impensáveis, difíceis. E ele, por outro lado, é da turma da simplicidade extrema. Seus processos mostram que até o que é complexo fica com cara de fácil. Essa é a verdadeira beleza do objeto.

O seu desenho também é muito minimalista, né?
Minimal sim, mas muito mais bruto. O dele é extremamente delicado. Tem uma contenção, um rigor muito primários. Beira a arte. Não é o desenho que eu vejo em escala. Você ama todas as cadeiras, mas são cadeiras para ter como objetos e não para cumprirem a função do sentar. Acho isso importante. É isso que os criadores têm que propor, não a versão final. É a mesma diferença de quando você tinha na moda a haute couture, depois foi para o prêt-à-porter e, agora, tem o fast-fashion. Antes se partia de uma fantasia, virava algo comercial e, depois, atingia outras versões. Isso foi acabando. Hoje em dia, as ideias são cuspidas. Você vai a um desfile e já compra no mesmo dia. Aqui o Nendo faz a antítese desse movimento. Talvez, por isso, toque tanto as pessoas.

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Mais contenção e equilíbrio?
É! Acho que casa muito com o momento que as pessoas vivem. Hoje em dia, você tem que fazer escolhas. Cada vez mais escolhas. Você vai começando a não ter mais espaço ou a não ter mais o dinheiro que você tinha antes. Isso indica linhas futuras. Não só para o brasileiro, mas para o mundo todo.

Apesar da objetividade do seu traço, você flerta muito com a arte. Quais os limites entre a forma e a função na indução do seu traço?
Essa discussão foi extinta na Bauhaus. A função foi a primeira coisa a ser superada. A ideia de que forma segue função já passou. O ponto da emoção é o que eu gosto mais de focar e de pensar. Talvez, o fato de viver sempre em um ambiente tão violento seja a origem do humor. Nem todo o humor é para dar risada, quase sempre é uma crítica. A figura do palhaço é uma crítica, uma figura triste.

Você trabalha com low budget?
Sempre!

Taí uma fama que você não tem (risos).
É só olhar direito para o meu trabalho que você vai entender o que é low budget. Eu gosto de todos os materiais em sua essência. O meu novo escritório, por exemplo, é todo de tijolo vermelho. Por que vermelho? Eu não sou londrinense, oficialmente, mas me considero de lá. Conquistei tudo em Londrina – sou pé vermelho! Gosto da questão da tradição de onde fui criado. Então, aquela fachada quer dizer isso e como eu enxergo o tijolo. Um mesmo elemento pode assumir um milhão de formas sem que eu interfira nele. Eu não desenhei o tijolo. Eu poderia ter um pensamento de design e desenhá-lo, mas não. Back to basics mesmo.

As pessoas fazem fila para fotografar seu escritório “basiquinho” e entender o sistema construtivo. Você foi empilhando os tijolos para definir a configuração?
Fui. Eu e mais três pedreiros haitianos montamos todo o esquema juntos, fazendo testes e descobrindo – um pesadelo! Se tivesse erguido uma pirâmide em Gizé, teria sido muito mais fácil, com certeza! É irreproduzível aquela estrutura. Jamais faria, se alguém me pedisse. Foram 42 pessoas trabalhando 24 x 7 durante dois meses, com uma qualidade impressionante. O Haiti tem uma fama muito negativa – e injusta – com algumas coisas. Lá tem faculdade de construção civil e os caras dominam conhecimentos milimétricos. Então, eles desenvolveram a técnica comigo. Tudo foi assentado com areia. Depois, usamos um grampo para poder cortar a chapa, algo muito complexo. Entendi por que na antiguidade matavam os operários depois que terminavam um templo (risos). Nunca mais quero reproduzir aquilo. Mas teve uma importância: vi que a cada tijolo que foi sendo colocado significava alguma coisa que precisava mudar na minha vida. Foi um processo de autoanálise que eu não posso fazer com o cliente, já que arrisquei muito ali.

Corremos para o prédio da Microsoft, onde a Cassina celebrava seus 90 anos com Patricia Urquiola, que Guilherme idolatra e com quem já dividiu uma palestra. “Patricia é genial, generosa, bem-humorada, carinhosa. Dá pra ver sua alma no design que assina.” De lá, fomos à Zona Tortona, que a Moooi inseriu no mapa-design como um dos points mais disputados em sua mostra anual. Fundada em 2001, na Holanda, pela dupla Marcel Wanders e Casper Vissers, a grife tem como missão “tornar os ambientes mais belos, inspiradores e excitantes”. Habituada a enfatizar o uso de fotografias em suas apresentações, dessa vez acionou os insetos gigantescos do londrino Levon Biss para compor cenografias ambientadas com seu catálogo de móveis – de tirar o fôlego. Tudo a cara de Torres. “A Moooi foi uma das minhas primeiras paixões em design”, diz ele, colecionador de várias peças, que já comprou até a duvidosa “Horse Lamp” para sua cliente (e amiga) mais extravagante, a “mulher rica” Val Marchiori, e que tem outro abajur-bicho, o coelho, em seu living. Naquela tarde ainda visitaríamos Paola Lenti, marca tocada pela designer homônima, internacionalmente reconhecida por seu mobiliário outdoor de fino trato, feito a partir de técnicas hi-tech em combinação às artesanais, com destaque para as tramas, crochês e que tais. Encerramos o dia na Louis Vuitton, com este starchitect fanático por Star Wars, morrendo mais de amores pelo legendário disco voador do arquiteto finlandês Matti Suuronen (a “Futuro House”), do que pela curadoria da expo. “Objetos Nômades? Tenha dó! Esta palavra, ‘nômade’, é o novo ‘sustentável’. Mas teria os balanços Cocoon, dos irmãos Campana.”

O dia quinto. Galeria La Rinascente
Estamos André e eu em um raro momento de pit stop no meio da maratona milanesa: depois de devorar um panzerotto napolitano (na verdade foram três, mas não conte para o Guilherme, senão ele vai dizer que foram 10 – e com leite condensado) nas adjacências do Duomo (no tradicional Luini), vamos garimpar traquitanas de design na Rinascente. Enquanto passamos pelo setor de objetos, eis que surge Monsieur Torres, em um dos seus looks japonistas, desta vez escoltado por Bernnardo Bennedito – diretor de arte que está no comando da comunicação visual/gráfica do seu escritório –, e acompanhado por duas malas de viagens zeradas, tamanho extra-large-plus. “Cadê o Enrico?”, pergunto. “Adivinha?”. Claro, o pupilo de Guilherme, Casanova nato, estava em mais um date romântico com uma diva-italiana. “Tá indo pro aeroporto?”, André joga a isca. Guilherme abocanha: “Comprei essas malas agora, mas já estão cheias!”, pragueja, enquanto quase chuta as bagagens, inconformado com a “falta” de mais espaço em sua tarde de shoppingterapia. “Essas são só pra levar o que estou comprando aqui na Rinascente, porque não vai caber nas malas que trouxe do Brasil!”, responde, de certo modo orgulhoso, enquanto aponta para os “equipajes” inflados, rechonchudos – e a ponto de explodir – de tão recheados. O arquiteto é consumidor contumaz. Como em tantas viagens que fizemos juntos, invariavelmente, ele nunca volta de mãos vazias – em dezembro de 2016, André e eu havíamos estado com ele em Miami, durante a Art Basel, e entre um passeio e outro, era inevitável entrar com Gui em uma ou outra “lojinha” – voltou com seus estoques de Issey Miyake, Alexander McQueen e Yohji Yamamoto devidamente reabastecidos. Encontrá-lo na mesma loja em que nos conhecemos mais de uma década atrás é sempre divertido. Mas, dessa vez, foi uma versão “turbo”. Cinco vendedores pararam para atendê-lo, enquanto ele escolhia todo o enxoval de seu novo escritório. Tratou de pinçar, pessoalmente, cada talher, xícara e prato do novo QG (o tal prédio de tijolinhos que todo mundo quer tirar fotos na esquina da Gabriel Monteiro da Silva com a João Moura, e que também ganhará uma galeria de arte em breve, em total sinergia com o todo).
Por lá, há algum tempo Guilherme decidiu descentralizar seus negócios. O arquiteto Rafael Miliari, seu fiel escudeiro, parceiro de trabalho há mais de 12 anos, e Debora Atsuko, persona conhecida no mercado que assume a administração, são associados. “É da natureza de qualquer escritório formar profissionais. O quadro fixo é societário, o colaborativo, volante.” Enrico se junta a nós no terraço do restaurante Obicà, mozzarela-bar que é um dos maiores points milaneses, pousado lá no terraço da Rinascente, um pouco abaixo dos picos do Duomo que arranham os céus.

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Aos 25 anos, nascido em Roma, Enrico contrariou a tradição da família ao estudar arquitetura. Passava os verões europeus na Sicília e, desde sempre, notou uma relação estreita entre o homem e seu espaço. “Gostava dos vazios, da monumentalidade. Meus desenhos de infância eram casas.” O sangue é azul (membro legítimo da corte italiana, e neto de Graziella Matarazzo, descendende do poderoso industrial Francesco Matarazzo). Veio para cá em 2013, depois de estudar Belas Artes na Academia de Roma e Arquitetura em Oxford, mas fala um português tão impecável que é difícil acreditar – assim como domina o italiano, o inglês, o espanhol e o francês. Terceiro – e caçulinha – entre os associados do Studio Guilherme Torres, Enrico assume um papel multidisciplinar que vai desde os vídeos institucionais superbem pensados que pipocam nas redes sociais, até um impulso maior em explorar o potencial do escritório em obras públicas. “A cidade não conversa entre si, os edifícios não dialogam com as suas calçadas, não há interatividade entre as pessoas na paisagem urbana e os conceitos são um pouco equivocados. Um banco e um ponto de wi-fi free numa praça não são suficientes, é preciso planejar mais e melhor esse lado humano do bem público”, diz o pequeno príncipe cujo tio, Andréa Matarazzo, concorreu à prefeitura da cidade em 2016. “O que me frustra são duas coisas: primeiro, a falta de conhecimento de uma geração que interpreta instrução como educação; depois, essa falta de emoção. Quando projeto algo, seja uma arquitetura ou um filme, entrego um pedaço de mim. Sem emoção, no way”, conta o enfant terrible, com a anuência do mestre Torres. Terminamos o tour com uma perguntinha mais impertinente – e apocalípitca – ao Gui:

O que você quer ser quando morrer?
Quero ser cremado e virar adubo, ração, trabalho do Vik Muniz, peça de nave espacial, cura do câncer, bomba nuclear (risos). Nos próximos meses, estou abrindo minha Fundação e vou doar tudo. Deixou de ser um desejo antigo para entrar tudo nos trâmites, no papel. Tanto os meus bens pessoais, como os direitos autorais. Senti um tapa na cara e fiquei muito focado quando visitei o Jardim Majorelle (jardim botânico no centro de Marrakesh, Marrocos, que foi comprado pelo estilista Yves Saint Laurent nos anos 1980 e atualmente pertence à Fundação Jardim Majorelle, subsidiária da Fundação Pierre Bergé – Yves Saint Laurent). Essa questão do legado é algo importante, seja lá qual for o tamanho da sua obra, já que você não dura nada. Ainda mais no Brasil, onde tudo é tão complicado. Você já conseguiu visitar a Casa das Canoas, do Niemeyer? Está sempre fechada. Não tem dinheiro para conservação. É um drama.

André e eu voltamos ao Brasil no dia seguinte. Guilherme, Enrico e seu excesso de bagagem (àquela altura ainda mais corpulento), voaram para Weil am Rhein, na Alemanha, com um grupo de bambas a convite da Vitra, para conhecer o campus + museu da marca. Logo depois, emendaram o tour com uma esticadinha até Helsinki, na Finlândia, antes de voltarem ao Brasil para despachar dezenas de projetos e afivelar de novo as malas para Nova York, onde Gui palestrou a convite da Dupont. “O tempo não para, e eu também não”, disse. “A hora é agora e eu não consigo parar. “O futuro, a Deus pertence. Ou, em alguns casos, ao “Coisa-Ruim”. Mas que Guilherme Torres, o santinho do pau-oco sem papas na língua, tem tudo para fazer e acontecer, ah, isso tem. Doa a quem doer.

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Guilherme Torres
studioguilhermetorres.com

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