Revista Giz

02 Fev 2017 - Abr 2017

#2 | Nenhuma Nudez Será Castigada

Marcio Kogan dispara: “Às vezes, digo que sou um tipo de prostituta, pois me pagam para dar prazer”

Com poesia concreta e muita paixão estética, GIZ preparou para você dois dedos de prosa com um dos baluartes de nossa arquitetura: Marcio Kogan

  • 8 maio 2017
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O arquiteto Marcio Kogan retratado pelas lentes do fotógrafo Beto Riginik

No caos paulistano, crianças e adultos que andam a pé na Alameda Tietê têm um alento. O paredão pintado de preto do número 505 é um panfleto in-progress. A lousa democrática convida todos a se exprimirem em palavras, desenhos, rabiscos de qualquer credo ou natureza, com o giz colorido disposto no rasgo do muro. A bem da verdade, o duo giz + lousa representa a mais autêntica eficiência low-tech. Ele orquestra a ferramenta educacional mais simples e revolucionária, equivalente na música às Gymnopédies de Satie, simplificação da mais pura sofisticação. A poética dicotomia serve de metáfora para uma das mais belas arquiteturas da história brasileira recente, sobre a qual seu autor, o arquiteto Marcio Kogan, diz: “Às vezes, digo que sou um tipo de prostituta, pois me pagam para dar prazer”.
O paredão esconde as peripécias do templo de reflexão estética desse humanista da urbe que reza pelo trabalho em equipe e cunhou o estúdio com uma sigla de agente secreto: MK27. É a junção das iniciais e do número de sorte do fundador que tem como mascote um objeto kitsch fora do comum, considerando a seriedade, às vezes exacerbada, dos colegas do meio. É um Kewpie, bebê de plástico com chuquinha e olhar arregalado. Criado em 1912, o Kewpie é o bisavô dos Teletubbies, também presente no eclético acervo do Studio MK27 assim como o Piu-piu e mais dezenas de mini-personagens lúdicos que povoam as prateleiras do escritório.
O nonsense do mais adulado arquiteto brasileiro de sua geração vem à tona nos projetos que faz em paralelo.

É nos filmes que inventa, escreve, dirige, produz, que o flerte com sua fina ironia aflora com brilho, pois Marcio Kogan é um cineasta digno do nome

Pode ser constatado nas exposições temáticas “Arquitetura e Humor” (1995 e 2001) e “HappyLand” (2002 e 2004), ambas concebidas com o amigo de infância e colega de ofício Isay Weinfeld. Está no design high & low da série “Próteses e Enxertos”, desenvolvida pelos arquitetos do Studio para Micasa, em 2011, com peças de ouro cravadas em móveis de canteiro de obra feitos pela anônima mão do povo com pau, prego, suor. Entretanto, é nos filmes que inventa, escreve, dirige, produz, que o flerte com sua fina ironia aflora com brilho, pois Marcio Kogan é um cineasta digno do nome. O vício da sétima arte pegou quando assistiu a um filme de Bergman cabulando aula. A traquinagem rendeu uma crise existencial. Fazer cinema? Seguir arquitetura? Por sorte Isay enfrentava o mesmo dilema que acabou enveredando os dois numa aventura a quatro mãos de 13 curtas. Marcio tinha 18 anos. Filmados com a finada Super 8, ostentavam títulos debochados como Oh! Lonely Cow,  Melhor Filme de Enredo,  No Fim Todos Acabam Dormindo. Em 1988, veio Fogo e Paixão, o sonhado longa da dupla, uma crítica ácida à metrópole com um dream team composto por Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Regina Casé, Nair Belo, Tonia Carreiro, Rita Lee, Mira Haar, Cristina Mutarelli. Até a socialite Linda Conde, nossa Anita Ekberg, figurava no casting. O exercício foi incensado pela crítica, eleito entre os melhores nacionais dos anos 1980, mas um fiasco de bilheteria. Pior, quase afunda o Studio na Tietê, fundado em 1976. O remédio foi focar na prancheta e levantar o escritório sem engavetar a graça.

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A murada de cobogós chama a atenção na Casa Pasqua, projeto localizado na Fazenda da Boa Vista, interior de São Paulo

O ofício e o humor de Marcio talvez se expliquem pela figura do pai. O arquiteto-engenheiro Aaron Kogan foi um construtor influente que faleceu quando o menino tinha oito anos. Participou em empreendimentos de envergadura na capital paulista, como o Hospital Albert Einstein e o preferido do filho, o edifício Racy, versão do ondulante Copan de Niemeyer. Projetado pelo patriarca no Jardim Europa, o lar modernista dos Kogan foi uma das casas “tecnológicas” pioneiras da pauliceia. Em 1958, ao portão da garagem foi acoplado um controle remoto movido a válvula com o abrir e fechar ao toque do botão. Era o milagre da automação.
No ano em que a tecnologia de ponta pintou na vida do garoto, em Paris, o cineasta Jacques Tati lançava Meu Tio (Mon Oncle, 1958). O visionário manifesto de Tati/M. Hulot versa sobre as ironias da vida moderna, em particular, a de uma família na casa moderna e seus aparelhos futuristas hoje comuns. No filme, ela é a Villa Arpel, tão relevante ao enredo quanto os personagens em carne e osso. Foi projetada por Tati e o cenógrafo Lagrange com inspiração na arquitetura corbusiana Art Déco de Mallet-Stevens com volumes sobrepostos cortados por rasgos longitudinais posicionados até nas quinas. A emblemática Villa Arpel é fiel ao conceito e ainda exibe um par de aberturas circulares em voga nas fachadas modernistas dos Anos 1920 a meados dos Anos 1930.

“Não tenho sonhos nem desejos específicos. Minha emoção depende muito mais se tenho empatia e amor pelo cliente do que o tema da obra”

Um escritório oficial com Marcio e Isay à frente, eles jamais tiveram mas, de 1986 a 2000, a dupla compartilhou alguns projetos que brindaram a capital paulista com novos ares. Um deles, a Casa Goldfarb (1988), é uma clara reverência à Villa Arpel: a fachada principal exibe o alinhamento de um trio de óculos (aberturas circulares) encimado por um guarda-corpo desenhado por três linhas tubulares. Dez anos depois, também com Isay, veio o Hotel Fasano, badalado pela Wallpaper. Com janelas que lembram as do icônico set de Hitchcock em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), a fachada de tijolo queimado reproduz um Big Ben na cumeeira. O nostálgico arranha-céu poderia figurar no cenário de outro gênio da grande tela, Harold Lloyd, admirado por Tati e Hitchcock, e garanto, por Marcio e Isay. Em seus curtas cômicos, Lloyd sempre é levado a se pendurar nos braços de um relógio gigante no topo do edifício, como em Safety Last (1923), obra-prima do cinema mudo, traduzido como O Homem Mosca.

Modern Living_ studiomk27_ versão português from studio mk27 on Vimeo.

Mas o nome Marcio Kogan bombou mesmo em 2001, com a Casa Gama Issa, uma ode ao Minimalismo com ginga brasileira em alvura mediterrânea. Com porta de correr parede a parede, a fachada dos fundos simula uma boca de cena que transforma o living com pé-direito duplo em um palco para o jardim interno. Nela são perceptíveis as lições do arquiteto autodidata de origem mexicana, Aurélio Martinez Flores, seu mestre no Mackenzie e grand seigneur da arquitetura paulista de alto padrão dos anos 1970 aos 1990. Homenageada na edição inaugural da GIZ por nosso publisher Allex Colontonio, a Gama Issa, a meu ver, é a mais bela residência concebida no país na virada do milênio. Ela delineou o estilo de Marcio Kogan, cravou sua marca na arquitetura brasileira contemporânea, criou novos eixos referenciais e ainda ajudou a direcionar os olhares estrangeiros a uma nação que se prefigurava, o Brasil Maravilha.

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A fachada de muxarabi é o elemento que chama a atenção do projeto Casa Cava, localizado na Fazenda Boa Vista, interior de São Paulo

De lá para cá, um sem fim de entrevistas foram concedidas. Dentro e fora do país, projetos e mais projetos foram construídos. Palestras foram proferidas e premiações acumuladas. “Acho que os mais premiados foram a Casa Gama Issa, a Casa Paraty, Livraria Cultura, Micasa vol B, Casa Redux, o edifício Vertical Itaim e, mais recentemente, a Casa na Mata”, cita num misto de orgulho e timidez. Junto à fulgurante trajetória, ele equilibra o exercício íntegro, próprio do ofício, com sua veia irônica, nem que o ensejo transpareça apenas nos nomes de alguns projetos. Casa Lulu. Casa das Chaminés. Casa de Tijolinho. Até Casa sem Cliente tem.
Mas o mundo dá voltas. Em 2012, foi convidado para representar o País na 13ª Bienal de Arquitetura de Veneza no Pavilhão do Brasil, um projeto de rara beleza, situado nos famosos Giardini, feito em coautoria liderada pelo arquiteto Henrique Mindlin, em 1959. O purismo do pavilhão sintetiza a fórmula tradição + modernidade defendida por Lúcio Costa (1902-1998), trilhada pelo Modernismo contemporâneo de Marcio Kogan. Enfim, uma honra. Para realizá-lo, retomou sua paixão inicial após um hiato de 24 anos sem tocar numa filmadora depois do baque de Fogo e Paixão. O resultado foi Peep, um filme-instalação em looping, feito com atores, em que se espreita (peep, em inglês) através de olhos mágicos dispostos em um paredão preto o cotidiano de uma família numa casa projetada pelo Studio. Os donos transando na suíte. A babá a fumar no portão. As crianças brincando no jardim. O faxineiro a descansar na sala das máquinas. A cozinheira bronqueando na cozinha…

PEEP_ film exercise #1_ La Biennale di Venezia from studio mk27 on Vimeo.

Desde então, na companhia de criativos como seu filho Gabriel, Marcio vem realizando mini-curtas sobre projetos do Studio MK27, postados no Vimeo. O ensaio da Casa Redux, por exemplo, celebra Godard e Woody Allen. O marido, com voz em off, confessa a separação ter sido motivada pela casa. Ele preferia uma mansão neoclássica, ela, uma minimalista. Em Cat (O gato) Kamylo descortina a Casa Toblerone ao swing bem-humorado de uma clarineta “disneyana” que narra as passadas do bichano.

Cat_film exercise #2 from studio mk27 on Vimeo.

Com atmosfera de filme em preto e branco dos anos 1950, o divertissement arquitetônico sobre a Casa P tem o roteiro conduzido pela cozinheira que sonha, um dia, ser a dona daquela casa. Quem não sonha? Sob encomenda para a GIZ, bati um papo informal com ele às vésperas do Natal.

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Registro da Casa Abre-Fecha, projeto de volumetria marcante, em Arujá, interior de São Paulo

Marcio, você continua tímido?
Sim e sempre serei. Mas melhorei muito.

Durante a mais recente campanha de eleição para prefeito, em São Paulo, você participou da exposição na galeria Pivô, Cartas ao Prefeito, e a transformou em um curta que abre com você lendo, Prezado prefeito, pode não acreditar mas esta é uma carta de amor por essa cidade feia, poluída, caótica…. Nela você analisa São Paulo não sem ironia. Alguma reação do novo prefeito até hoje?
Não. Absolutamente nenhuma reação, aliás tudo que falo ali é absolutamente óbvio, mas adorei ter feito e achei a exposição incrível.

Cartas ao Prefeito from studio mk27 on Vimeo.

Outra mostra interessante da qual você participou foi Dove Vivono gli Architteti (Aonde Vivem os Arquitetos) no Salone del Mobile de 2014, em Milão. Você ainda mora no mesmo apê?
Moro no mesmo apartamento no Itaim que foi o meu primeiro projeto há trinta anos. Não parece um apartamento de um arquiteto e gosto que seja assim. Não posso receber clientes para jantar, não consigo nem mandar consertar uma gaveta. Nunca quis fazer um projeto de uma casa para mim porque sei que seria o meu fim.

Esse seu peculiar senso de humor também se percebe na história em quadrinhos, inspirada na visita a clientes seus em Guangzhou, na China, que você fez com duas assistentes. Qual a lição desse episódio chinês?
O projeto foi um desastre! Mas as massagens que fazíamos tarde da noite nas ruas de Guangzhou eram incríveis! Valeram a viagem.

E as aulas na Escola da Cidade, no centro, continuam?
Sim, continuo por lá como professor do estúdio Vertical, sou um grande admirador da Escola. Dou também aula na Politecnico de Milão onde sou professor convidado. Gosto muito de transferir o meu conhecimento aos alunos.

No âmbito do design, seu escritório exibe uma imensa coleção de mini-cadeiras. Quais as preferidas?
São como filhas, não tenho preferidas.

Qual o tamanho de sua equipe atual?
Somos trinta, muito mais do que eu gostaria. Há cinco anos convoquei todos para anunciar solenemente minha decisão de limitar o escritório a vinte pessoas. Um arquiteto levantou a mão para lembrar que já éramos uma turma de vinte e dois.

Quantos projetos correm lá atualmente?
Nunca sei até porque alguns ficam anos e anos na prancheta. Mas com a nossa crise, os trabalhos no exterior hoje representam 75%.

Qual o menor projeto construído pelo Studio MK27?
Estamos terminando um projeto de 40 m2. Foi um concurso que ganhamos junto a outros escritórios de arquitetura para projetar residências para escritores num centro perto de Lausanne, Suíça.

Fora o Brasil, qual país tem mais projetos seus construídos?
Terminamos recentemente um projeto residencial em Madri com 22 casas que vão desde 106 m2 a 266 m2. Foi um privilégio ter feito este projeto que ocupa um quarteirão. Conseguimos colocar o estacionamento no subsolo, o que propiciou ruas, praças e espaços de pedestres bem interessantes. Estamos terminando uma casa em Palm Beach, Flórida, e uma numa montanha em Whistler, Canadá. Neste momento, estamos trabalhando em dois hotéis: um em Bali e outro nas Ilhas Maldivas que são os projetos de maior porte do Studio.

Todos nós, admiradores de sua arquitetura, sentimos falta de obras públicas com seu olhar. A quantas anda a Fábrica de Espetáculo do Theatro Municipal na Gamboa, no Rio, iniciado em 2014?
A obra continua lentamente com gastos sendo cortados frequentemente, mas gosto muito deste projeto que é um simples retrofit de um lindo armazém que estava praticamente destruído na área portuária do Rio de Janeiro.

A praça infantil do Shopping Iguatemi?
É um dos nossos projetos favoritos, localizado num lote de 900 metros quadrados próximo ao shopping.

E a Praça Zózimo do Amaral, no Leblon, no Rio, em que pé anda?
Morreu. Era um projeto razoavelmente barato, o que não é muito bom para a imagem da prefeitura.

Atualmente, onde se faz a melhor, a mais bela arquitetura e a mais contemporânea em termos responsáveis?
Acho que aqui no Brasil começamos recentemente a nos recuperar dos estragos do regime militar. Hoje, o Japão faz, talvez, a melhor arquitetura, na minha opinião, muito inspirada em Oscar Niemeyer.

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Qual arquitetura você mais admira?
Sou fã do Modernismo brasileiro que produziu vários arquitetos, autores de excelentes projetos. Para mim é muito complexo tentar entender como um país completamente isolado do mundo conseguiu, naquele momento, produzir a melhor arquitetura. Mas os anos de ditadura terminaram com este momento emblemático. Não vou citar nomes para não criar nenhuma injustiça, mas temos, no Brasil, ao menos uma dúzia de excelentes escritórios, um número bem elevado se comparado ao resto do mundo.

Então, diga um projeto contemporâneo que o emociona?
Adoro o trabalho de muita gente. Recentemente visitei o Teshima Art Museum projetado por Ryue Nishizawa, no Japão. Emocionante! Pegue um avião e voltei no dia seguinte: vale a passagem!

Ainda na esfera da emoção, qual o momento profissional que bateu forte?
Graças a Deus, vários. Talvez o mais forte foi quando recebi o título de membro honorário do AIA (American Institute of Architects). Aconteceu numa sinagoga antiga em Nova Orleans, foi um misto de Bar Mitzvá com Star Wars, pois tive que vestir uma toga.

Sonha projetar o quê?
Não tenho sonhos nem desejos específicos. Minha emoção depende muito mais se tenho empatia e amor pelo cliente do que o tema da obra. Me sinto um pouco um burro puxando todos os dias uma carroça com os meus olhos direcionados por antolhos.

Calcula ter quantos projetos construídos?
Não tenho a mínima ideia, nem quero saber, me passa uma ideia triste do passar dos anos.

Para finalizar, como sintetizaria a cultura do habitar nesses tempos ultramodernos?
Esses dias estávamos conversando sobre isso no escritório. Na essência, pouco mudou na história, mas mudanças culturais vêm acontecendo. Recentemente, visitei alguns empreendimentos imobiliários em Estocolmo e o interessante é que apartamentos com 90 metros quadrados parecem muito melhores que os nossos porque possuem um só banheiro e não têm área de serviço, com isso, os espaços resultantes são excelentes. A tecnologia também trouxe várias novidades para dentro da casa: nada melhor que deitar no sofá com uma coca-cola gelada e zapear pelos 200 canais num gesto. Precisa mais?

Studio MK27
Al.Tietê, 505, São Paulo, T (11) 3081 3522.
studiomk27.com.br

 

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