Revista Giz

01 Out 2016 - Dez 2016

#1 | Edição de Estreia

Cobogó reloaded

Intervenção respeitosa – e original – do projeto dos anos 40 assinado por Zenon Lotufo, pelas mãos do jovem (e brilhante) arquiteto Felipe Hess, a casa paulistana ganha ares tão frescos quanto o vento que atravessa os cobogós para encontrar os pilares delgados que remetem a uma São Paulo de um outro tempo e espaço

  • Por:Wair de Paula
  • Fotos:Fran Parente
  • 7 novembro 2016
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O living leva composição de mobiliário vintage como as poltronas Liceu de Artes e Ofícios e Joaquim Tenreiro

Passo por um pôster de um show de Thelonious Monk, por uma floreira modernista cheia de espadas de São Jorge, e numa pequena sala decorada com móveis vintage, um ostensivo livro sobre o arquiteto Mies Van der Rohe e uma heliografia de Leon Ferrari. Percebo que nestes pequenos elementos o arquiteto Felipe Hess já dá as dicas de seu trabalho e personalidade. E, ao longo do tempo que conversamos sobre o projeto de ampliação/reforma/restauração da casa CSF, um projeto original de Zenon Lotufo do final dos anos 1940, ouço a palavra “respeito” uma série de vezes. Está aí a gênese desse trabalho, que resultou numa casa de pouco mais de 500 m2 no Jardim Europa, ao lado de um dos centros financeiros de São Paulo, mas com um jeito de chácara modernista completamente adaptada ao estilo de vida contemporâneo.

“Acredito que nosso maior acerto foi a criação de um novo andar, que abriga escritório e uma sala de cinema, paixão do dono da casa, pois parece que ele sempre existiu. Nos preocupamos em fazer um volume de forma orgânica”

Segundo o arquiteto, ao longo dos dois anos entre projeto e entrega da obra, por algumas vezes os donos dessa casa quase desistiram da empreitada – recuperar uma casa de forma paradoxalmente respeitosa e ousada, visto as necessidades atuais desse jovem casal de empresários, com três filhos pequenos. Afinal, era mais fácil derrubar tudo e fazer um projeto inteiramente novo – mas Felipe, com colaboração do arquiteto Lucas Miilher, estava mais interessado em valorizar a arquitetura original. “Acredito que nosso maior acerto foi a criação de um novo andar, que abriga escritório e uma sala de cinema, paixão do dono da casa, pois parece que ele sempre existiu. Nos preocupamos em fazer um volume de forma orgânica, que dialoga com a caixa d’água de forma elíptica – e pesquisando sobre o arquiteto descobri o uso recorrente das linhas curvas em seus projetos”, diz Felipe. Mas a maquete desse projeto à minha frente e as fotos da obra finalizada me mostram que esse foi um entre os muitos acertos desse jovem arquiteto. Uma parede curva de elementos vazados cerâmicos e um passeio/laje sustentado por delgados pilares pintados de verde, o muro externo de tijolos que repete o assentamento original das paredes laterais, os deslocamentos de aberturas reaproveitando as esquadrias originais e a recuperação do belo piso em parquet bicolor, escondido na área íntima sob um carpete colocado ao longo dos tempos, demonstram isso – uma profunda reverência (calcada no conhecimento) a valores estéticos para poder ousar em sua interpretação contemporânea.

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O paredão de cobogós contrasta com o belo jardim assinado pelo paisagista Ricardo Viana

A sala de almoço, com cadeiras de Joaquim Tenreiro e foto de Cristiano Mascaro, se abre para um jardim que já não mais existia – paisagismo de Ricardo Viana. O living, com poltronas do Liceu de Artes e Ofícios e novamente Joaquim Tenreiro, recebe a cor da grande tela de osgemeos. Ao fundo, a sala de jantar, com mesa de Zalszupin e cadeiras de Geraldo de Barros, denota a predileção do morador pelo mobiliário brasileiro vintage (que já trazia algumas peças desse período, complementadas ao longo do projeto). O bufê desenhado pelo escritório dialoga perfeitamente com as linhas da casa, e uma tela de Daniel Senise nesse espaço reforça o discurso.

“Era uma questão de ser o mais respeitoso possível, era uma casa significativa, com valor”, ouço de Felipe Hess sobre um projeto que ganhou mais significado e mais valor após sua interferência.

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